«Num futuro será possível andar com as palavras dessa época e dessa geografia em cima dos cestos de todos os dias, como frutos na sua imobilidade de frutos, belos e alcançáveis pela fome dos corpos. A água que cairá dos céus escuros, nos Invernos enrolados sobre um centro, mas também durante tempestades, virá a produzir um efeito de lixiviação sobre o léxico. Será possível evocar os números da estradas municipais e os das estradas nacionais, e os nomes das cidades, das povoações, das fábricas de tijolo, das oficinas, libertos de todos os sedimentos que os amarravam a uma coerência histórica».
«Isso pode ser feito imediatamente. Isso sempre pôde ser feito.»
«O excesso de proximidade dificulta a visão».
«Por outro lado a pretensão de saber ler a coerência histórica, mesmo que só uma coerência histórica, está muito próxima da experiência do delírio.»
«Justamente. O que estou a tentar precaver é contra a natureza comum, vulgar, desse delírio. Tão vulgar e tão comum que quase nunca ou nunca é reconhecida a qualidade delirante. Antes se organiza como uma grande construção, um castelo, uma fortaleza, de contrafortes sólidos, o senso comum, as regras da experiência. Quem se detenha a contemplar as grandes pedras do edifício, a sua sombra projetada na planície árida, corre o rico de repetir o destino da mulher de Loth. Para esses, as palavras da época serão como líquenes dos grandes muros debaixo do sol e não se distinguirão da matéria com que estes foram erigidos.»
«Não compreendo a necessidade de proteger palavras. O que pretendes proteger é outra coisa, algo que se oculta na sua sombra.»
«Um resíduo longo. Uma cal.»
«Mas também ilusório.»
«Perdura.»
/ 12 / 2004

