Os dias luminosos e sucessivas noites fazem de incompreensível xadrez. Um homem, que se arrasta nas canadianas, inventa este pensamento no ocaso de vento. Música nas folhas das árvores celebrando fervor e caos. Os sentimentos vogam, as nuvens, os pombos abstratos.

30/6/2005

Vem convicto de que as máquinas celebram um ritmo na luz residual. Observou a trepidação no vasto espaço entre uma sombra e montanhas azuis, ao fundo. As árvores, as antigas muralhas imóveis, a cidade de edifícios brancos estão certas. Também as estrelas, também as constelações não existentes. Mas gostava de perceber depressa.

24/6/2005

Mulheres atravessavam os jardins de junho com mamas raras. Deambulavam. Nas joias desenharam um acróstico. A sêmola no ar opaco com pássaros.

24/6/2005

A noz era um menino, a nêspera era o menino. Pela luz confusa, por tempos confusos como um tapete ela trazia no ventre um enigma e o meio-dia.

13/6/2005

(tartaramudo) 25


Numa fulguração pelo cume, na fulguração como vertigem, ele vê algures (mas onde?) o ventríloquo revê o que um dia viu (mas quando?) o único quadro, não um díptico, não um tríptico, da batalha de S. Romano, a tarde de lanças em que afinal se não perdeu Bernardino della Ciarda, a dança de elmos e cavalos, e cavaleiros, e heráldica.
O tecido nunca puído da luz da batalha rarefazendo as imperfeições das horas sangrentas, pó, estrépito, o furor dos de Florença e de Siena, essa seda permanecerá viva com átomos das gemas mais raras, doces frutos da Toscânia, os olhos íntimos de Paolo Uccello observando a simetria que há nas chacinas e há nos poentes de ouro e lâminas.
Nesse tecido, como zângãos convulsivos, Niccoló da Tolentino e Miccheletto da Cotignola agarram com as mãos enluvadas uma inquietação que nunca finda, exibem-na e ocultam-na, são vencidos por ela ou vencem-na no campo, na dança, na batalha.
Vem, ser fabuloso.
Vem, dia.

1/6/2005

(tartaramudo) 24



Não se pode dizer com certeza, o ventríloquo não pode dizer a viagem há muito iniciada, nem sequer a ideia de viagem, apenas lhe é dado reconhecer fragmentos, aparências de algo que parece a viagem um dia iniciada. Nesse em que a floresta estava nitidamente recortada contra o céu azul e havia vento, um vento do íntimo, mas não um vento verdadeiro.
A camioneta estava na eminência de partir e iniciaria a marcha a todo o instante, a camioneta com cores insistentes como prodígio imerecido, cores para fora de si, para a alegria para fora, para a alegria durável sob a cúpula azul de toro por dentro, na contínua luz, no sol da manhã.
Durante um tempo, um jardim de tempo, a camioneta aguardou o viajante e essa duração adquiriu a consistência própria de camioneta trepidante na espera do viajante sob o sol, sob o vento nas altas copas da floresta.
Alguns anos depois o ventríloquo faz do teto inteiro da camioneta o campo de observação de todos os passageiros com os seus esgares na rede do sono, bocas abertas aos dragões do ar, às moscas, os corpos abandonados a deformações que contêm uma verdade oculta, confinante com a obscenidade e a morte.
Esse momento de olhar, de observar, estende-se como onda pela trepidação regular do motor da camioneta e inicia-se imediatamente por cima das cadeiras da frente, as mais próximas do condutor, prossegue depois lentamente por dentro da luz esvaída, pela atmosfera aquecida e insalubre, interrompendo-se aí onde a diluição de todos os contornos é uma noite infinda.

1/6/2005

(tartaramudo) 23


Todo o movimento se sustém numa hesitação, eis o que parece ao ventríloquo, se sustém na pergunta de todos os olhos amarrados ao ramo húmido e ao silêncio gotejante na velha cave, silêncio no edifício de sombra entre todos os que se movimentam como espectros.
Sim amigos de ardor vário.
Todos se movimentam como espectros na dança melancólica e há uma mesa, vitualhas, cadeiras com os abafos para um inverno intemporal, mas todos movimentando-se como espectros no vasto espaço a que vieram conviver.
Aproximou-se com a preocupação inadiável. O ventríloquo aproximou-se.
A viagem há muito iniciada visava que propósito?
Fazer que demorada verificação?
A de uma desordem, de uma insuficiência dos mundos?
De um paradoxo experimentado além, muito além do jogo lógico?
Na hora noturna há a dança das chamas num centro que não é imediatamente observável, mas se adivinha no reflexo obsessivo, instável, pelas madeiras do teto, pelas faces enredadas para dentro, pelos espelhos intransponíveis, pela mesa a que deveremos comer.

1/6/2005

O cartógrafo Renegado

A viagem há muito iniciada