(tartaramudo) 24



Não se pode dizer com certeza, o ventríloquo não pode dizer a viagem há muito iniciada, nem sequer a ideia de viagem, apenas lhe é dado reconhecer fragmentos, aparências de algo que parece a viagem um dia iniciada. Nesse em que a floresta estava nitidamente recortada contra o céu azul e havia vento, um vento do íntimo, mas não um vento verdadeiro.
A camioneta estava na eminência de partir e iniciaria a marcha a todo o instante, a camioneta com cores insistentes como prodígio imerecido, cores para fora de si, para a alegria para fora, para a alegria durável sob a cúpula azul de toro por dentro, na contínua luz, no sol da manhã.
Durante um tempo, um jardim de tempo, a camioneta aguardou o viajante e essa duração adquiriu a consistência própria de camioneta trepidante na espera do viajante sob o sol, sob o vento nas altas copas da floresta.
Alguns anos depois o ventríloquo faz do teto inteiro da camioneta o campo de observação de todos os passageiros com os seus esgares na rede do sono, bocas abertas aos dragões do ar, às moscas, os corpos abandonados a deformações que contêm uma verdade oculta, confinante com a obscenidade e a morte.
Esse momento de olhar, de observar, estende-se como onda pela trepidação regular do motor da camioneta e inicia-se imediatamente por cima das cadeiras da frente, as mais próximas do condutor, prossegue depois lentamente por dentro da luz esvaída, pela atmosfera aquecida e insalubre, interrompendo-se aí onde a diluição de todos os contornos é uma noite infinda.

1/6/2005