À hora em que a noite caía e a luz era a colcha azul, o véu lúcido. Eu prosseguia por um caminho de pé posto na traseira das moradias, na fronteira com o campo de choupos, forragem depois, animais a olharem com uma serenidade fatal. Durante um tempo, o dique do corpo esforçou-se por conter as emoções. Por fim aceitou uma trégua, que era também uma conclusão.
«Tão insuficiente a proteção dos consumidores!» .
Não há defesa contra as balanças mal aferidas nem contra a urgência das operações comerciais em balcões inacabados, nenhuma defesa contra a lassidão de empregados de olhar turvo, comunicando entre eles com o código desconhecido. Eu trazia na memória a sensação de um erro óbvio de pesagem, um erro de tal modo grosseiro que impedia toda a possibilidade de reação, pois qualquer pessoa diria a si própria que não podia ser «levado a sério».
Prosseguiam por um caminho estes pensamentos.
Mas não por muito tempo. Algo os desalojava do antigo carreiro junto dos muros.
Os olhos deambulavam para um horizonte em que a noite se fazia cúmplice, choupos abstratos de um inverno, aves de uma ferida de outrora. Os olhos deambulavam, mas não por muito tempo e quando voltavam com as suas asas, um sobressalto sustinha-os no voo.
«Porque são outras as mercadorias adquiridas?»
«Quem se obstina contra o direito dos consumidores?»
Estas perguntas vieram para dentro do espírito ao verificar que algo se mudara nas coisas compradas, mas algo que as tornava inteiramente satisfatórias para o fim a que se destinavam, percebendo que a surpresa da descoberta era acompanhada de outra forma de deceção

17/2/2005
O Cartografo Renegado

Homem buscando o quê?