(Grande Palmípede) III


Quando o homem (o viajante) se pôs de novo em marcha ao anoitecer.

E quando o bando se pôs de novo em marcha ao anoitecer, prosseguiu para sul como antes. Os rastos dos assassinos dirigiam-se para oeste, mas eram homens brancos que atacavam os viajantes naquelas paragens agrestes e disfarçavam os seus feitos de modo a que parecessem obras de selvagens. Os conceitos de acaso e destino preocupam os homens envolvidos em empresas temerárias. O trilho dos argonautas terminava num amontoado de cinzas e o ex-padre indagou se na convergência desses vetores naquele lugar desolado onde o ânimo e a iniciativa de uma pequena nação foram aniquilados e engolidos por outra não seria visível a mão de um deus cínico a orquestrar com toda a severidade e um simulacro de surpresa uma tão fatal congruência. A colocação de testemunhas por uma terceira via totalmente diversa poderia também invocar-se como prova, dado que parece ser tudo menos obra do acaso, porém o juiz, que espicaçara o cavalo até ficar a par dos homens que assim discutiam, declarou que nisto se exprimia a verdadeira natureza da testemunha e que a sua proximidade não era uma instância acrescida mas sim a primordial, pois a salvo dos olhares humanos alguma coisa acontecerá?

Na austeridade neutra daquele terreno, a todos os fenómenos era concedida uma estranha igualdade e nenhuma criatura ou objeto, nem aranha nem pedra nem folha de erva, podia reivindicar primazia sobre os restantes. A própria clareza destes objetos desmentia a respetiva familiaridade, pois o olho inteira-se do todo com base nalgum traço particular ou parcela e ali nada havia mais luminoso do que o resto e nada mais sombrio e na democracia ótica de tais paisagens, toda a preferência passa a ser obra de capricho e um homem e um penedo veem-se dotados de afinidades insuspeitadas.


19/1/2005

(Transcreve-se dois fragmentos do romance Meridiano de Sangue de Cormac Maccarthy)