Deitado num simples colchão, sobre o soalho de madeira enegrecida, posso dedicar-me a reflexões que são a novidade. Uma penumbra da equívoca manhã tece a teia em que as coisas ganham consistência. Há uma escassez de colchões.
Os meus pensamentos estão deitados em decúbito dorsal e espreitam no teto da grande camarata as tábuas decrépitas. Frinchas abrem para um vento a que a imaginação deu nome. Democracia.
No flanco esquerdo, os corpos deitam-se sobre o soalho porque há uma escassez de colchões. A situação não é confortável e pergunto-me se uma ação ou um gesto são devidos.
Nunca saberei a resposta.
Foi uma interrupção conveniente, acham os meus pensamentos e eu sou tentado a dar-lhes razão. «Têm razão.» digo sombriamente, ponderando que o corpo não tem a resistência de outrora e as viagens a albergues juvenis podem ser cansativas.
Sim, houve uma interrupção. O homem aguardava no primeiro compartimento à esquerda, depois da entrada, na sala de jantar pobremente decorada para onde as visitas eram conduzidas. O homem fumava um charuto. Ele era a interrupção.
Tempo depois, convidei o invasor para um recanto familiar em que nunca houve lareira, mas eu garanto que a imaginação sabe mentir. Não importa. O charuto revelava-se de uma importância simbólica extraordinária. O fumo azul velava a fronte do homem e ele erguia o queixo na pose aristocrática.
O que pareceu esboçar-se como um começo de conflito evoluiu posteriormente para um vero exemplo de prodigalidade. Ofereci-lhe a caixa de charutos.
Eu tinha deixado de fumar.

4/1/2005