(O outro e o espelho) 12



«O destino de todas as palavras é semelhante ao dos seixos nas enxurradas. São arrastadas para os vales férteis, para os estratos sedimentares, mas não pertencem ao aluvião. Podem ser retiradas em qualquer altura, por vezes torna-se mesmo necessário fazê-lo. É possível enunciar os nomes para um território, para uma carta geográfica – Mortágua, Tondela, Mangualde, Nelas, Penela, o rio Dão, o rio Mondego, a serra do Buçaco. Este grupo de palavras pode ser substituído por qualquer outro igualmente concreto e igualmente equívoco.»
«Um jogo para o cartógrafo.»
«O cartógrafo desdenha por completo da seriedade das delimitações territoriais. Portanto, na sua perspetiva, essa compulsão de precisar o horizonte reduz-se a um jogo meticuloso mas sem consequências.»
«Mas ele é o anfitrião, o cicerone de um mundo.»
«De um mundo, sim.»
«Não de um território?»
«Um mundo alheio a coordenadas geográficas.»
«Um mundo entre o café do camionistas e a torre das reuniões.»
«Não um mundo entre, mas um por dentro, pelo interior, pelo centro íntimo do café, da torre, etc.»
«Pelas rotinas columbófilas, por aves que arrulham.»
«Água, murmúrios.»

/ 12 / 2004

(O outro e o espelho) 11



«Num futuro será possível andar com as palavras dessa época e dessa geografia em cima dos cestos de todos os dias, como frutos na sua imobilidade de frutos, belos e alcançáveis pela fome dos corpos. A água que cairá dos céus escuros, nos Invernos enrolados sobre um centro, mas também durante tempestades, virá a produzir um efeito de lixiviação sobre o léxico. Será possível evocar os números da estradas municipais e os das estradas nacionais, e os nomes das cidades, das povoações, das fábricas de tijolo, das oficinas, libertos de todos os sedimentos que os amarravam a uma coerência histórica».
«Isso pode ser feito imediatamente. Isso sempre pôde ser feito.»
«O excesso de proximidade dificulta a visão».
«Por outro lado a pretensão de saber ler a coerência histórica, mesmo que só uma coerência histórica, está muito próxima da experiência do delírio.»
«Justamente. O que estou a tentar precaver é contra a natureza comum, vulgar, desse delírio. Tão vulgar e tão comum que quase nunca ou nunca é reconhecida a qualidade delirante. Antes se organiza como uma grande construção, um castelo, uma fortaleza, de contrafortes sólidos, o senso comum, as regras da experiência. Quem se detenha a contemplar as grandes pedras do edifício, a sua sombra projetada na planície árida, corre o rico de repetir o destino da mulher de Loth. Para esses, as palavras da época serão como líquenes dos grandes muros debaixo do sol e não se distinguirão da matéria com que estes foram erigidos.»
«Não compreendo a necessidade de proteger palavras. O que pretendes proteger é outra coisa, algo que se oculta na sua sombra.»
«Um resíduo longo. Uma cal.»
«Mas também ilusório.»
«Perdura.»

/ 12 / 2004

Critério para o sólido, ó amores!

20/12/2004


O vento que muda um mundo, um desses legumes.

17/12/2004
O Cartógrafo Renegado

Desses Legumes


As palavras representativas. As pocilgas.

17/12/2004

Não quero crer que a estas falésias foi subtraído o perigo fatal, que o uivo do vento cedeu ao côncavo dos banhistas. E no entanto eles sorriem-me, debruçados sobre o abismo, acenam-me com os moinhos de papel colorido.
Mas não quero crer.
Nem me aproximo, prefiro confiar nos meus sentidos de outrora. Uma luz fulgurante sobre o mar defronta o antigo negrume, a tinta dos fundos.
Viro as costas aos banhistas sem hesitação mas depois sou forçado a concluir que nenhuma maré traz os grandes peixes a estes tanques. Quem, então? De que forma os seus grandes olhos se tornam no espelho de preocupações familiares?
O arquiteto, dizem-me. Um artista estranho que denega o litoral. Foi ele que desenhou as arcadas inexpressivas e inquietantes, de onde olhamos o grande canal de águas esverdeadas, pouco profundas, quase ao alcance da mão.
E debruçamo-nos um pouco.

5/12/2004
O Cartógrafo Renegado

Peixe em ascensão

(tartaramudo) 22


No limite, ou melhor, no anverso mais vulgar, mas no anverso, as vozes remetem o ventríloquo para a anulação, ocupam todo o espaço, elidem-no da conversa, afastam-no da praça de palavras aladas sob plátanos, da proximidade dos muros dos templos, da possibilidade de observar o cenário onde uma representação vai ter lugar. Por exemplo, nuvens altas, longa escadaria, os vendedores ambulantes que ali não estavam ontem, que nunca voltarão a estar, enquanto a noiva sorri para a fotografia.
O ventríloquo é então apagado, dissolvido, imerso no interior de uma sombra espessa e nos seus sentidos já não há a luz da manhã, a trémula, não um vento de agulhas finas, não os pássaros, o junco, o colírio, ferida alguma com o luxo do sangue, nenhum júbilo senão como eco num reino de obscuridade.
Vale o tartaramudo, que pode trazer pela mão, traz de facto pela mão a cana seca por um longo tempo, por tempos e tempos deve dizer-se, por mais de uma década sob sóis e o vento, nos campos de geada, nas cidades de luzes irreais, nos corredores hospitalares, nas assembleias políticas em que as paixões guardam segredos.
Como paciência insone.
Como outra qualidade inominada, funda.
Talvez as vozes possam ser reveladas, salvas, talvez se arrastadas para fora de si, para fora do seu uso, da finalidade socialmente buscada. Que a cana se transmude na flauta, quer a estupefação do ventríloquo afundado num magma de que se não conhece a ordem, o nexo, o fim.
Todas vozes no tempo são degradadas até à irrisão, até uma demência com pó, mas sobre elas o tartaramudo pode convocar um deslocamento que se revele simultâneo reconhecimento da radical estranheza e da evidência para si. No que segue, limitou-se a alterar a disposição gráfica de um texto de outubro de 1988.
...............................................................................................
........................... prosseguiram políticas condicionadas
Pelo estabelecimento de alianças com os monopólios
Internacionais, as multinacionais e o imperialismo, e com as
Camadas e os setores diretamente interessados na restauração
Ou na recriação dos monopólios, dos latifúndios e do capital
Monopolista, com a sua dinâmica de exploração.
A natureza de tais alianças e a correlação de forças
Estabelecida no seu interior determinaram que esses objetivos se
Tenham inscrito como objetivos estratégicos no interior daquelas
Políticas, disseminando a sua pressão e linhas
De força também pelas políticas sectoriais.
As classes e camadas sociais, que em períodos determinantes
Para a definição do poder político, particularmente nos períodos
Eleitorais, se tem revelado como suporte dessas alianças, abrangeram
Um vastíssimo leque da sociedade, onde há que incluir, além
Da grande e média burguesia, também muito largos
Setores da pequena burguesia urbana e dos camponeses, jovens,
Mulheres, intelectuais, trabalhadores.
As contradições, que constantemente se geraram e geram no
Interior de um tão vasto leque social, são fortíssimas, na
Realidade inconciliáveis, originando tensões e lutas permanentes.
O apoio de tais classes e camadas ao estabelecimento de alianças com
O grande capital estrangeiro e nacional tem-se evidenciado nos períodos
Eleitorais, tornando-se aberta e frontalmente
Inseguro e instável, e reduzindo-se,
Logo que se concretizam os efeitos da política condicionada por tais alianças.
Têm-se então estabelecido diferentes arrumações das forças
Sociais e por vezes das forças políticas, alargando-se rapidamente o
Leque das camadas e grupos sociais que têm
Combatido e combatem tal política.
A multiplicidade das fórmulas de governo experimentadas e prematuramente
Abortadas e os efeitos desastrosos das políticas que
Prosseguiram são plenamente demonstrativos do caráter anti popular
Desse sistema de alianças. O desenvolvimento da ação governativa,
Com ofensivas correspondentes aos seus
Objetivos e contrariando o processo
Da história, merece a classificação de processo contrarrevolucionário.
Deverá questionar-se porquê forças sociais e políticas, designadamente
Partidos, encontram suporte político eleitoral em vastas camadas das
Massas populares para prosseguir alianças com o grande capital
Internacional e nacional. Ou dito de outro modo, porquê
Vastas camadas das massas populares têm sido suporte eleitoral de
Forças Políticas que conduzem um processo contrarrevolucionário
Contra os interesses, as conquistas sociais e políticas e a memória histórica
Dessas camadas. Como pano de fundo desse facto e simultaneamente
Condicionante do mesmo há que referir a densa rede de interações e
De dependências entre a nossa economia e a do mundo capitalista,
Situação essa, que, simultaneamente conforma interações e
Dependências político ideológicas e outras, sendo ainda de destacar
Que o processo contra revolucionário se tem desenrolado no
Quadro de graves tensões internacionais e de profunda crispação, que
Só recentemente se atenuou. A escolha de tais sistemas de alianças,
Em pugnas eleitorais e neste panorama, tem presumivelmente sido
Determinada, nas suas implicações mais diretamente políticas, por
Um quadro ideológico que envolve, por parte dessas camadas
Populares, um julgamento negativo sobre a viabilidade prática
Concreta de colocar o partido em posição determinante no
Centro Nodal do poder político. E esse julgamento negativo, se
É verdade que pressupõe, por parte dessas camadas, uma avaliação
Diversificada e calculista do cômputo de ganhos e de perdas, tática,
De curto prazo, no jogo das contradições classistas da sociedade das
Suas relações com o mundo, esse julgamento negativo, dizia-se,
No condicionamento político ideológico externo já referido, tem
Sido contudo enformado, no vértice ideológico político, pela
Desconfiança de o partido vir a respeitar os direitos e liberdades
Democráticas, políticas e sociais, no mais amplo sentido, desses
Grupos e camadas, caso ocupasse posições chave no aparelho do poder
Político central, e sobretudo pela desconfiança e o temor, por parte
Dessas camadas, de perderem a força negocial
No interior de outra aliança de partilha de poder.
Estas componentes da consciência política e ideológica recente dessas
Classes e camadas sociais, reiteradamente manifestada nas suas escolhas
Eleitorais, o que tem sido o fator político decisivo para os êxitos do
Processo contrarrevolucionário e a retoma dos seus fôlegos sucessivos, essas
Componentes, geradas num persistente e duradouro esforço de
Propaganda da classe dominante, designadamente durante todo o
Período Fascista, foram exploradas, aprofundadas e renovadas, após
A revolução, pelo fortíssimo aparelho de propaganda ideológico e cultural
Do imperialismo e do capitalismo, particularmente através dos meios
De comunicação de massa, articulado, no interior do nosso
País, com o rápido desenvolvimento de quadros, instrumentos e
Organizações colaborantes com aquele aparelho.
Uma tal conformação deste quadro ideológico, contudo, só
Pôde operar-se com êxito devido a um conjunto de fatores
Complementares e interactuantes, que podem sintetizar-se: -
A resolução, no período mais crítico da revolução, da questão do
Poder político num sentido favorável às forças interessadas na paragem
E no retrocesso do processo revolucionário, aliás também por
Virtude de resultados eleitorais, e a consolidação posterior desse poder.
A capacidade de contraofensiva demonstrada pelo imperialismo e o
Capitalismo no período coincidente com o do processo
Contrarrevolucionário, com particular relevo nos planos
Económico e do desenvolvimento tecnológico, o que potenciou a
Sua influência ideológica junto daqueles classes
E camadas, particularmente a juventude.
A degradação da imagem e do prestígio do mundo socialista junto das
Massas populares, tornada possível pelos obsessivos e persistentes
Esforços da propaganda do imperialismo e do capitalismo, mas
Conseguida afinal pela duração e evidência dos sinais objetivos de
Impasse e estagnação económica nesse mundo, pela persistência de
Graves crises políticas em alguns desses países, por opções
Mais controversas ou incompreendidas no âmbito da política
Internacional e pelas restrições e desrespeito aos direitos políticos dos
Cidadãos e das massas, na sequência de
Graves deformações dos princípios, da ética e da legalidade.
As insuficiências e debilidades do partido no quadro da luta
Ideológica, umas e outras resultantes de condições objetivas,
Como seja a enorme desproporção quanto a meios e
Poder, ou de condições ...............................................................
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2/12/2004