«O destino de todas as palavras é semelhante ao dos seixos nas enxurradas. São arrastadas para os vales férteis, para os estratos sedimentares, mas não pertencem ao aluvião. Podem ser retiradas em qualquer altura, por vezes torna-se mesmo necessário fazê-lo. É possível enunciar os nomes para um território, para uma carta geográfica – Mortágua, Tondela, Mangualde, Nelas, Penela, o rio Dão, o rio Mondego, a serra do Buçaco. Este grupo de palavras pode ser substituído por qualquer outro igualmente concreto e igualmente equívoco.»
«Um jogo para o cartógrafo.»
«O cartógrafo desdenha por completo da seriedade das delimitações territoriais. Portanto, na sua perspetiva, essa compulsão de precisar o horizonte reduz-se a um jogo meticuloso mas sem consequências.»
«Mas ele é o anfitrião, o cicerone de um mundo.»
«De um mundo, sim.»
«Não de um território?»
«Um mundo alheio a coordenadas geográficas.»
«Um mundo entre o café do camionistas e a torre das reuniões.»
«Não um mundo entre, mas um por dentro, pelo interior, pelo centro íntimo do café, da torre, etc.»
«Pelas rotinas columbófilas, por aves que arrulham.»
«Água, murmúrios.»
/ 12 / 2004
«Um jogo para o cartógrafo.»
«O cartógrafo desdenha por completo da seriedade das delimitações territoriais. Portanto, na sua perspetiva, essa compulsão de precisar o horizonte reduz-se a um jogo meticuloso mas sem consequências.»
«Mas ele é o anfitrião, o cicerone de um mundo.»
«De um mundo, sim.»
«Não de um território?»
«Um mundo alheio a coordenadas geográficas.»
«Um mundo entre o café do camionistas e a torre das reuniões.»
«Não um mundo entre, mas um por dentro, pelo interior, pelo centro íntimo do café, da torre, etc.»
«Pelas rotinas columbófilas, por aves que arrulham.»
«Água, murmúrios.»
/ 12 / 2004

