Não quero crer que a estas falésias foi subtraído o perigo fatal, que o uivo do vento cedeu ao côncavo dos banhistas. E no entanto eles sorriem-me, debruçados sobre o abismo, acenam-me com os moinhos de papel colorido.
Mas não quero crer.
Nem me aproximo, prefiro confiar nos meus sentidos de outrora. Uma luz fulgurante sobre o mar defronta o antigo negrume, a tinta dos fundos.
Viro as costas aos banhistas sem hesitação mas depois sou forçado a concluir que nenhuma maré traz os grandes peixes a estes tanques. Quem, então? De que forma os seus grandes olhos se tornam no espelho de preocupações familiares?
O arquiteto, dizem-me. Um artista estranho que denega o litoral. Foi ele que desenhou as arcadas inexpressivas e inquietantes, de onde olhamos o grande canal de águas esverdeadas, pouco profundas, quase ao alcance da mão.
E debruçamo-nos um pouco.

5/12/2004
O Cartógrafo Renegado

Peixe em ascensão