Quando a imaginação se torna ociosa, a persistência dum antigo parágrafo não deixa ver. «É a sombra da guerra civil» ouço a voz. Mas que sombra é essa?
Deambulei muito tempo pelos terraços vazios, observando as paredes de tijolo, os arames estendidos no meio dia.
Fazia-se nítido um propósito, fazia-se insistente - «Devo sair de Madrid, posso observar a auto estrada por onde seguirei». Os sentidos demoravam-se pelos descampados dos subúrbios, renques de árvores alinhadas com esmero e depois prédios de habitação, fábricas, armazéns.
Do lugar em que os observava, aqueles que faziam a multidão amável pareciam tomados pela dança, trocavam sorrisos, palavras boas, um gesto mais impaciente. Com os meus olhos achava-os e perdia-os sem remorso algum.
Os sucessos que se convertem no acidente são posteriormente pensados como se um mecanismo de relógio, um engenho opaco, se tivesse movimentado para fora da razão. Há a vedação de rede, o campo depois, de erva seca, de feno na brisa, a terra amarela recentemente remexida e, por fim, o corpo imobilizado debaixo dos ferros torcidos, aguardando socorro.
Sei que não eras aquele enrolado no lençol branco, que serviria de mortalha, de cujo nariz saía muito pus, tendo no lábio negro uma mosca negra. «Ao fundo, um canhão e uma mula, e, a seu lado, a mulher que chorava o filho morto era sua mãe».
Sei e não sei.
Com a ajuda dos desconhecidos, uns poucos minutos chegaram para que os sinais da desordem se desvanecessem e todos seguiram o seu caminho. Do lado de lá da vedação observo a auto estrada.

21/10/2004