(O outro e o espelho) 9



«Porquê cegueira estranha? Uma cegueira falsa?»
«Falsa, sim, como se percebe agora.»
«E a desatenção seria apenas um mecanismo de defesa. Uma forma de representação. Talvez esta seja a outra maneira de dizer o mesmo.»
«Uma atenção em sono. Discreta e diferida quanto aos efeitos, a querer significar uma necessidade de distância.»
«A mesma distância que chama cartógrafo ao homem que de facto exercia a topografia.»
«Não.»
«Não?»
«Sim. Porque a ameaça, que se pressentia nele, a toda a volta como um halo, era a recusa tenaz de dar sentido, de impor um sentido ou uma medida.»
«Mas ele subia as montanhas e media, atravessava os vales, observava, fazia as medições.»
«As máquinas mediam, as máquinas neutras, impávidas. Ele apenas lia e anotava os dados. Não recusava a possibilidade de sentido. Apenas recusava essa possibilidade ao seu ponto de vista, a qualquer ponto de vista parcial, ao teu.»
«Contudo, contava histórias de que só se conhecia o traço grosso, a imprecisão e não recusava representar um papel, participava nas discussões na torre, negava e afirmava.»
«Mas abstinha-se de toda a veemência, olhava e via o jogo, sabia da impossibilidade de antever o seu desenrolar.»
«Sim.»

19/10/2004