(O outro e o espelho) 8



«O propósito que nos é confiado é o de revisitar a parte do passado que a desatenção condenou ao apagamento, não a desatenção posterior aos factos mas a que lhes foi coetânea, a que foi erigida no próprio momento para separar e dissolver. Este trabalho é portanto uma negação de uma negação e por isso o risco de adulteração está aumentado. O mecanismo psicológico pode ser descrito da forma seguinte. Toma atenção. Aquelas coisas que a estranha cegueira dos sentidos e da inteligência sensível arrumou e classificou como trivialidade desinteressante, como vulgaridade contaminada por pecado (um que agora se tornou incompreensível), lançando-as no esquecimento, essas coisas querem retornar.»
«São elas que querem retornar?»
«Não vejo razão para que não se diga assim. Querem retornar. Alguma coisa mudou que permite agora olhá-las com outros olhos, ou algo existe a querer mudar que reclama a sua recuperação, a sua reconstituição. Não se trata contudo de apurar a verdade digamos, factual, embora esta desça pelas linhas de água. Há uma outra nervura, uma rede menos visível, cujo vinco se revela precisamente onde as camadas de sombra foram mais espessas e opacas.»
«Como o que diz respeito ao cartógrafo.»
«Sim.»

19/10/2004