«Uma mulher que tinha escolhido calar-se.»
«O nome dela está esquecido.»
«Não é lembrado o seu nome?»
«Não.»
«A sua recusa das palavras era uma afirmação de sentido.»
«Não se pode dizer que houvesse uma recusa das palavras. Não alimentava o seu fluxo, cingia-se à brevidade. Estava presente, colaborava, mas ouvia em silêncio. Era uma mulher envelhecida, o tempo marcara-a, olhava de frente com uma espécie de objectividade serena. Quando a recordo continuo a interpretar o seu comportamento como uma doação indiferente, mas uma doação. Não consigo imaginar as justificações que a traziam à torre.»
«Nunca a olhaste, nunca quiseste ver. Ficaste prisioneiro do alheamento.»
«Ela também é uma prisioneira. Numa tarde de sol, caminha pela rua, aproxima-se, sobe as escadas, troca saudações talvez com um sorriso.»
«Com um sorriso, claro»
«Porquê o tom irónico?»
«Dela tu não viste nada. Não sabes nada. Há um rio por dentro do vento do Outono que atravessava o descampado, chiava nas dornas, nos toros de pinheiro e eucalipto empilhados no pátio da serração. Ela vinha por dentro do rio com a face severa, pensava nos olhos simultaneamente doces e bárbaros das crianças, que são como pássaros, eis o que pensava. Os livros podem ser outros, as palavras expectantes nas suas furnas e ela via, mais do que adivinhava, ela via os pequenos seres com as sacolas escolares libertos finalmente de todos os lugares de horror, das noites áridas, da escassez. No seu espírito, nas suas mãos de onde a frescura se afastara havia uma balança com frutos, com as cores da manhã e essas coisas trémulas podiam cegar todos os estranhos. De facto cegaram todos os estranhos. Por essa fatalidade foi esquecida.»
19/10/2004

