A estranheza, pai, também a conheces, esse luxo raro do arbusto
Sensível, mas creio que a tomas no braço com indiferença
Para que recolha as plumas óbvias, as que não permitem olhar. Tantas vezes caminhaste entre os penedos na montanha do alecrim e rosmaninho
Entre penedos agredidos pelo vento das noites
Por facas húmidas, sibilantes
Tantas vezes revisitando as dolinas e com os poros aguardavas a única
Metáfora, água, a luz, o milagre do reflexo de um céu de estranhas nuvens sobre o espelho emoldurado de junco. O teu coração bárbaro e justo não tem paciência para tantos desatentos e acrescenta tumulto ao tumulto das torrentes que no próximo Inverno se despenharão entre fragas e medronheiros, a reporem o lençol freático
No nível dos sonhos insistentes. Um dia ouviste o futuro espectro, um homem ensombrado pela nuvem aziaga dizer, mas sem te olhar, dizer-te «não sabes, João, o que é gerar duas filhas loucas». Muitos anos depois
Irás contar-me a sua morte, prostrado e silencioso nos dias finais. Na
Agonia desfiguraram-no a tal ponto
Que é penoso recordar a face efeminada,
O desaparecimento da barba,
Uma máscara
Que fazia gelar os olhos de alguns
Que o amaram.

24/9/2004