No metrónomo






Corpos que atravessam as ruas sob a máscara do deus, as sombras ubíquas desses corpos, para dentro e para fora, para dentro e para fora, o voo dos insetos mínimos desenhados por régua e esquadro enlouquecidos, quem persegue o quê?
Dentro da caixa, dentro da música?
E ao entardecer as filas por combustível nos postos de abastecimento.
Também a rapariga ardente, também os conglomerados, também uma apoteose, ao menos uma hipótese de apoteose no coração do negrume, lá, no metrónomo. 

11/6/2008

O sistema





Um significado para a banca que treme, pedem adoradores num crepúsculo. São manchas solares, sintetiza uma voz rouca, os ciclos. Almas subtis propõem termómetros, sismógrafos, cardamomo. Ah, o ouro!

9/6/2008

Ventos





No horizonte há a tela e os rasgões, fonte de ventos.
Nos volumes, ventos à solta, nos armários coalescentes.
E braços ferem-se nos secos ramos, os dos ventos.
Rochas negras e os novos armamentos.
Fazem-se e desfazem-se com ventos as obras dos arquitetos.
E completos artefactos, e intelectos.
Velozes navios no estuário contra os ventos, abecedário.
Ó, o futuro mecânico gerando de ventos o pânico!
Apetrechos mortais nos longos prados outonais. Ventos.

5/6/2008

Na cebola





Numa noite de insónia, quando a legião de anjos protetores estava de viagem para as praias das Caraíbas, ela apurou o seu conceito cosmológico. No centro fundo está uma nota musical adornada de seda, da sonhada seda. Desde o longínquo centro sucedem-se umas após outras as camadas sobrepostas como obstáculo nunca transposto. Com fracas forças protege duas filhas em busca de invisíveis fendas na cebola, a lacrimejante.

3/6/2008

Viandantes





Um vento vela os anelídeos. O melharuco também. Antígona sobre o telhado. Quem me dera ter asas de farol. Um tubo sonoro é Lacoonte. O mesmo vento erguendo contra si próprio as tendas. Como se chama o relógio da maçã? Corais, uva, calhau rolado. E então aprontaram todos os apetrechos de viandantes, e houve um júbilo de contemplar a azáfama, e foram muitos pelas colinas e os longos vales, e não conheceram o que não há para conhecer. Alguns deles não tinham cabeça e alguns não tinham braços, e alguns tinham o corpo coberto de feridas, e alguns tinham enlouquecido e estavam amarrados, e alguns estavam armados e montados a cavalo, e alguns tinham sufocado enquanto comiam, e alguns tinham-se afogado na água, e alguns tinham sido queimados pelo fogo.
Salvé irmãos!

2/6/2008

Espinheiro





A rapariga queria partir tudo porque tinha os nervos assanhados como um espinheiro. Não se deve desdenhar o efeito da meteorologia sobre cabeças desgrenhadas com cabelos. Deslocou-se em direcção a um bairro monótono da cidade monótona, depois na direcção inversa, por fim a recanto oculto em que a imaginação sofre de bulimia. Ela observa o efeito das suas palavras. Darão elas a solução expedita?

28/5/2008

Casario




Sob o céu mudável, casario branco e ocre. No íntimo do burgo, rios profundos abrem vez às superfícies espelhadas. Fósforo. Lâminas.

26/5/2008

Alegoria incompleta




Fazia reflexões feridas por uma dor e o seu esgar. «Chamam festa a esta reunião de estranhos. Porque lhe chamam assim?» A sala estivera apinhada e tive a impressão de que se tratava de uma antecâmara e de que o momento era preparatório. «Preparatório para quê? O que deve seguir-se?» Creio que nesse momento abandonei o local, depois de breve relance por algumas faces conhecidas, porventura de familiares tão incomodados como eu. Pergunto-me se se tratou de alegoria, mas não sei a resposta. Alguém reclamara uma posição diferente, um «estatuto à parte». Sobretudo o tom de voz foi intolerável, arrogante, de falso excelente, de inábil. Não relembro as palavras, sei que anunciavam uma morte anunciada, exibindo sem pudor o conhecimento, como se «tivesse a chave». Talvez uma alegoria, mas incompleta, com zonas em branco, o que aliás é contraditório com a noção de alegoria, sendo que uma sucessão de factos anteriores permanece obscura, dissipou-se, afogou-se nas sombrias nuvens dessa tarde, esquecimento, remorso nas tesouras e na imaginação. 

26/5/2008