As fezes






Um portão com seus atavios de ferro forjado ou as poucas rosas amarelas emboscando os passantes é coisa e símbolo. Mas de quê? Quem apurou sentidos e Espírito para o que aguarda na noite e na névoa, e em todos os ocasos? 
Também as botas de cavaleiro brilhando de graxa e domínio. 
E esses objectos denominados medalhas. 
E os bastões. 
E os documentos autênticos. 
Talvez a primeira luz revele as lajes quebradas, se revelar as lajes quebradas e ao fundo o jardim em ruínas com os derradeiros bolbos na sua minúcia. 
Compreende o autor porque se faz a palavra fezes vitoriosa no solário? (no topázio?) 

Algumas aves, galinhas, um pato como uma aeronave, descrevendo uma curva larga. Mas não olhavas a sua existência projectiva, tu, o número, o mínimo Hermes, regular defecador. 
E mais tarde, em Agosto de 2005, foi a súbita intrusão de tantos estranhos no sítio íntimo que moveu o corpo contra os indesejados, a defrontá-los, a afastá-los, para que não lhes fosse permitido ver os lençóis maculados. 

E vê o autor Portão de agora, aberto de par em par para as ameaçadas rosas e há duas botas, e o vento sopra e sopra, e, sob a luz, a lagoa onde vêm beber animais familiares, a estas águas salobras, a estes domínios ao abandono, e vêm cavaleiro e a noiva com seus pelos, o sono, a contemplar estas águas, o seu depósito fecal. 

18/6/2012

Comediante Gongórica





Acaso seja grande palácio dum entardecer com vento arrastando plásticos e as folhas amarelecidas de jornais de outrora, acaso o vento e o uivo dele no parque de estacionamento dos automóveis, e cães pacientes, e jogadores de damas num inverno de antes, e árvores de ornamento, e mulheres com os desígnios delas. 

Pela grande avenida dos lacticínios no frio deslocara-se Antónia e tinha mudado de direção, ao fundo observando, com atenção aparente, banca da peixaria a exibir robalos e douradas, e Demiurgos do Levante. Um destes ergueu da banca, com a mão direita, e então a Comediante Gongórica, levando à boca o indicador esquerdo, fez schhh e murmurou «Não presta». 

Afastou-se Antónia sem tardar da banca da peixaria, deslocou-se não hesitando ao talho, perdeu um tempo observando as embalagens em armário e quando os olhos levantou, dirigindo-os para o interior do balcão frigorífico, percebeu sem surpresa no lado de lá a Comediante Gongórica segurando com a direita uma mão de vaca, segredando schhh para o indicador esquerdo diante do nariz e dizia «Não presta». 

Abandonava Antónia o Palácio, permitindo que os olhos risonhos repousassem nos legumes e hortaliças, mas deparou-se de súbito com voadora ave, Comediante Gongórica segurando couve tronchuda na dextra e com o indicador esquerdo erguido dizia «Não presta» logo em seguida a ter feito schhh. 


12/6/2012

Verónica na Praça








Chegam-me num eco os relatos de Verónica na Praça, as mamas esplêndidas rompendo para fora de faixas «aconchegantes» frente a antigo templo, ora restaurado, que cenário foi do divino impudor. E como fez dançar esses seios para um e outro lado diante dos vendedores de fritos e diante dos experientes sargentos sob a constelação de Opérculo Contíguo. E as coxas belas, dizem, nuas, convergindo para da deusa o odorífero monte. 

10/6/2012

Um labirinto







Há um momento, este preciso momento, em que o ventríloquo vai dentro do carro e sente uma sensação de dejá vu, não como repetição exacta de um acontecimento vivido, mas repetição contaminada por degradação, por anomalia. 
«Como farsa», pensa o tartamudo. 
Porque não fora na ante manhã, na hora fria com o peso de gemas, no negrume derradeiro como um rasgão de faca, que o ventríloquo entrara para dentro carro. Na verdade tinha-o feito numa manhã quase de oiro, quase vaga, também pela porta que acede ao banco de trás. 
«E não é verdade que a espera e a aproximação do automóvel se tenham ajustado com a precisão de um mecanismo de relógio», pensa o tartamudo. Fora mesmo necessário um telefonema de última hora para os últimos acertos. 
Sentou-se na parte central do assento, de que se tornou o único ocupante. 
A mulher no sítio de condutora. 
O ventríloquo verificou que o homem forte, ao lado da condutora, não lhe era inteiramente desconhecido. Ele tinha movido ligeiramente a cabeça durante um instante. 
A mulher quase mantinha a imobilidade, olhar agarrado a um alvo invisível, em frente, o pescoço grácil e tenaz da mulher, as retinas atentas, os lábios levemente franzidos, da tensão. 
O carro iniciara a marcha há muito. 
O ventríloquo era visitado por deficiência de percepção da realidade observável. 
Até que ponto era intruso? Ele percebeu as aceleradas mudança da luz e contudo mal sabia que essa percepção correspondia a um erro da fábrica de sensações. 
Ele sabia que não era intruso. Até que ponto sabia? 
O carro dirigiu-se para a cidade que esperava e depois afastou-se da cidade. 
A mulher nunca lhe pediu que arranjasse um pseudónimo para estas viajem e o ventríloquo não sabia se havia uma estranheza outra nessa omissão e nos seus motivos 
Avançam na hora furtiva? 
Avançam para fora da cidade debaixo da tarde. 
O ventríloquo viajante sentiu a responsabilidade de ter nome. 
Não fazia qualquer sentido que a mulher o informasse do seu nome e do nome do homem a seu lado, os de outrora falsos. 
Em longos momentos silenciosos, o ventríloquo abandonou-se no banco do carro, tomou consciência de que não descansara o suficiente, de que o sono reclamava direitos, mas desta vez a mulher não lhe pediu que, depois dos semáforos, se deitasse no banco e fechasse os olhos. 
«Que é conhecer o caminho e o local para onde nos dirigimos?», inquire a si próprio o tartamudo. 
A auto-estrada é a construção quase espectral por onde o carro segue, buscando a saída da cidade, erguida de nós intangíveis como flores venenosas, flores falsas e, sob a luz do fim de tarde, o ventríloquo observa campos perdidos entre a edificação humana, aonde um vento. 
«Está bem», disse o viajante (o ventríloquo?) 
Mas não se deita sobre o flanco esquerdo, em posição fetal, após puxar as pernas para cima do banco, nem se aconchega no grande casaco de inverno. 
Não há casaco algum de inverno, castanho, que possa puxar para cabeça, cobrindo quase completamente a face. 
«Ar condicionado», pensa o tartamudo. 
Na impossibilidade de amar as coisas a que chamamos materiais o viajante experimenta de um outro modo a insuficiência dos sentidos por dentro de um aparelho de conformidade rara, um labirinto. 

7/6/2012

Para tudo e Truta







O homem da outrora fronteira caminha neste momento por uma avenida falsa. 
Ou melhor, o nome da avenida atravessa-se na sua cegueira perdulária. 
Vê ele os edifícios, as vidraças, as coisas da obra humana, a acumulação de todo o artifício de cimento e flora, e sonhos trémulos como um vento sobre as águas. 
Caminha por Hotel com anáfora. 
Olha de viés um passado sem motor cognoscível. 
Ainda uiva o vento de Espanha nesses dias, sobre montanhas uiva, sobre campos de escassez e ardor. Vem vento sobre os campos de milho, sobre o horror dos cálculos de minifúndio, vem fervor com teus êmbolos de outrora. 
Vem com teu sentido e o junco preso na dança. 
Vem com os filhos de haver, projectos do pequeno comércio hiante. 
Os da promessa movendo-se para avenidas com dentes e ouro. 
Vai, avança, faz os cálculos. 
Bela é a luz da manhã, a impávida como faca. 
Vai, faz cálculos. 
A este futuro se dá o nome de Enciclopédia, 
A Completa e Próspera. 
Vai, vai. 
A ostentação nas vidraças, a nos metais exibindo a nunca equânime lâmina. 
Para Turista Ordinário. 
Para tudo e Truta. 

Abriu-se uma porta, pintada de verde, a escorrer humidade, e no lado de dentro era um enorme salão de casa de hóspedes, dividido por biombos improvisados, de mantas multicores, toalhas. Nenhum dos seus ocupantes manifestou qualquer surpresa quando da entrada do bando alvoroçado. As crianças não interromperam os seus jogos e todos prosseguiram as tarefas e as actividades pacientes. 

Os hóspedes refugiam-se nos tectos protectores, a tristeza árida. Vêm de peregrinar pelos sinuosos caminhos da falésia, cavada pelo mar nas plataformas graníticas, pelos precipícios virados a Norte, a Oeste, às aves das trevas. O povo anfitrião construiu canais serenos, hortas férteis, recantos de choupos, jardins, fontes onde a água nunca cessa de cantar. Desdenhados pelos visitantes, tais lugares são belos para nenhuns olhos, pois os seus construtores não os fizeram para si, nem sabem amá-los. 

2/6/2012

Portão da Oficina






Tinha nos meus sentidos a confiança da heroína de Homero? Se tivesse, teria, se num relance tivesse visto livre a entrada e os segredos tais, máquinas, o fogo, exibidos discretamente no fundo do túnel, haveria de dar meia volta, perscrutando com fatigadas retinas. Contudo, vejo então o que antes soubera, intocados estão os gonzos do Portão da Oficina, nenhum dos mundos tem aqui inicio ou canto, e os motores doem de Fuga. 

28/5/2012

A guardiã de cave






Durante longo tempo a mulher forte foi guardiã da cave. 
Foi da furna a Mestra mitológica. 
Tinha em seus olhos de melancolia espessa e no cabelo, penteado com obrigação de descrente, o prestígio da linguagem quase rara, o domínio, o desapego. 
Suportando em alças os opulentos seios e servindo-se de inóspito brilho nos olhos, almofada nenhuma da realidade exangue ela desnudava aos visitantes, a todos, aos transumantes, a comedores de bolos e salgados, e refrigerantes, as ridículas manias deles. 
Na sua cova de atenta, no seu cansaço de ver. 
Eis vinham os passantes, vinham mulheres com suas asas, demiurgos, heróis com máquinas fotográficas, duplos angélicos, vinham sobrinhas. 
Ela estava onde está e continuará se Deus quer. 
A ver. 

19/5/2012