Abscôndito














· Nos navios, no corpo enorme, ferruginoso, das naves aguardando a vez da grua, eis Abscôndito;


· Na proximidade de cavalos presos por uma corda de cânhamo, presos à terra;


· Abscôndito no vento, no rumor de ondas contra rochedos;


· No espanhol passeando seu cão eriçado;


· Nos aloendros, no rato fugitivo;


· Na balaustrada azul azul Abscôndito;


· Em Bongo, o emboscado, o cão, o amigável;


· E sob lua cheia os antílopes e cavalo branco, e cavalo baio comendo no prado, e lâminas, e luz;


· Bramindo o mar de longe brada Abscôndito;


· Frio húmido prado e olhos;


· Euterpe;


· Abscôndito Dolicocéfalo?


· Sofia, cadela jovem correndo atrás de borboleta;


· Andaimes desmantelados enferrujando num campo inculto;


· Abscôndito banco de madeira na sombra;


· Caverna;


· O terceiro princípio?


· E os que que caminhavam na manhã, as três crianças mais novas pelo antigo caminho visitado pelo vento, vento sobrevoando Orvalho e cântico, e um homem com o garrafão de plástico transparente;


· Rapariga Abscôndita no canavial urinando, nádegas brancas;


· Abscôndito nos que adoravam a oligarquia putrefacta, a Reles, a Demente por guerra, por ignomínia, a Doente de acumular e acumular, a fetichista de ouro e morte;


· Topógrafos Nele;


· Heliotrópio;


· E nas nuvens de cinza, rarefeita renda, lamelibrânquios no vento, vento; 


· Abscôndito vento;


· Abscôndita Democracia, na Usura dela movendo os dementes sonhos deles, de riqueza, poder, de Vantagem, agitando bandeiras de bando, escolhendo, voltando a escolher, voltando, Deles Dirigentes escolher, que levam pela mão sonhos, os Dementes deles, repetindo e repetindo Ordem, a ordem que são Eles com os dementes deles Sonhos, querendo ser mais Eles sem a Responsabilidade, a de responsabilidade Tudo que Democracia diz, Querendo, querendo esquecimento de ser, vota Rebanho do deus que ri distintamente, o fazedor da Perversa dádiva, ó democracia, onde avança para o Fim Deles, que querem esquecendo-se, Esquecendo.


· Ó Frango de churrasco! Ó Abscôndito!


· Na sebe de loendros de flor rosa e de flor branca;


· No coreto e na memória musical de coreto;


· Nos peixes ausentes do tanque, mas dentro da memória do tanque;


· E homem jovem dizendo pela forma sub-reptícia o amor dos animais;


· Na menina e neta jogando na pacífica enchente pedras negras, chatas;


· Nos processionários viajantes com os sacos seus entrando para Táxi, tendo-se deslocado pela Avenida da Ambivalência na forma da redita e dita indiana fila;


· Nos que partem para Destino ou intervalo dele com sacos de viagem seus, os areopagitas;


· Nas formas de Geometria Euclidiana de Jardim Público com seu Lago seco de outrora peixes, carpas (?);


· Na tâmara;


· Na Abscôndita Antioquia, a bela, a rainha;


· Na viagem para iluminar Caminho na noite, ou pelo espesso crepúsculo, denso;


· No labirinto de cordas de marear e um oceano com o Mármore;


· Infortúnio Abscôndito Infortúnio;


· Na rarefação do tempo sobre os acontecimentos que foram iminentes, mas se dissolveram antes do ser, a grotesca guerra nos subterrâneos do condómino, a que mobilizou instrumentos de limpeza e palavras amargas, a que visitou o sórdido e o amargo, mas antes de se converterem no que nunca seriam nem poderiam ser;


· Em rolas expectantes, observando;


· No ar;


· Abscôndita sombra sépia sobre Vale de barracões e os vagões onde tu estavas, ou sobre a casa agrícola em que a Decadência, a vaga, a lasciva, põe alforges e ali estás, e estás, e por vezes pensas no teu destino incompreensível ouvindo musica, e aguardas, e não sabendo sabes que tudo está certo, e tudo vai a Tarde de melancolia e pó, e é a luz, é um bolor antigo, o odor de flores mortas, e sabes que havia o mal no seu rio, mas tudo estava certo, sabes, a nuvem silenciosa irradiando como um bolor, os comboios de outrora sobre o Vale, o Averno;


· No erro antigo, na culpa sob a casa agrícola em que Eras;


· Em merencória.


/8/2012

Repartição







Enquanto subia a escadaria antiga, de pedra branca, gasta pelo uso de gerações, Bentes foi visitado por uma hesitação semântica. Trata-se de Palácio ou de uma repartição? 
Quem abandonasse a luz violenta do exterior, entrando pelo túnel silencioso, depararia com uma primeira porta, na esquerda do visitante. Por ela havia entrado Bentes, que se inteirou das informações expostas numa vitrina suspensa na parede defronte, retangular. As contra-ordenações tratam-se no primeiro andar, as Erínias recebem descrentes no lado sul. 
«A escadaria não está no mundo», pensou Bentes. 
Uma vaga de calor trouxera gafanhotos dos desertos sírios, e depois uma sucessão de violentas tempestades pôs à prova as convicções humanas sobre verosimilhança. Olhar e descrer, aconselhavam idosas senhoras e religiosas, que recebem pensões insuficientes para as necessidades mínimas da subsistência. 
O assunto que Bentes vinha tratar nos aposentos do Governador tinha relação, embora distante, com um contributo que a Estrutura Governamental reclamava, sem fundamento legítimo, das suas poupanças. 
Ultrapassou os últimos degraus, entrou para um átrio iluminado por luz vaga. 
Um homem sentado a uma secretária, de frente para os visitantes, tinha um lápis sobre uma das orelhas, orelhas de pelos hirsutos. Com estes apêndices, compreendeu a pretensão de Bentes e explicou-lhe de forma breve e com palavras claras quais os trâmites e afagos. 
«Olhar e descrer», pensou o suplicante, mas sentou-se à espera, como lhe comandaram. 
Um homem com sapatos de janízaro saiu do refúgio do palácio e com breve aceno fez-lhe o sinal. Entrasse. 
Bentes foi recebido por Octaviana, mulher do sétimo Governador, que registou eletronicamente a sua Impugnação e no final lhe deu amavelmente uma fotocópia, desobedecendo aliás a instruções para poupar papel nos tempos de crise. 

22/7/2012

Espírito






Chamam a este sopro o espírito de Deus sobre as águas, pensa o viajante, as do lago artificial em que desliza uma ninhada de doze patos nascidos no final da primavera, quando, no mesmo instante, Infantes se deslocam velozmente sobre bicicletas no empedrado do extremo oeste do jardim, e uma carpa desliza mansamente logo abaixo da superfície líquida. 

E o vento repentino, que no mesmo dia átono levantou a nuvem de pó e farrapos de plástico sobre o canavial de um subúrbio de detritos, e hortas pequenas, chama-se também o espírito do deus dos plátanos e das ostras, e de S. Julião apóstata. 

E o das duas raparigas esbeltas que na margem da estrada nacional n.º 3, junto de um vasto campo de milho verde, exibem a canónica beleza, a indecifrável de pernas da cor do âmbar ou mel, coroadas por saias justíssimas. 

Mínimas. 

Espreitando com a mesma surpresa e incompreensão o efeito de címbalo e álcool que causam no olhar dos reformados com carros em segunda mão, ou no dos empregados das empresas de mudanças, ou no dos homens solitários que vestem camisas às riscas. 

E chamam espírito à última cintilação da luz sobre uma casa agrícola, a derradeira observada pelo motociclista jazente da berma da estrada nacional número 3, poucos quilómetros adiante das raparigas Totémicas, enquanto que um uivo de ambulâncias sobre os campos de milho é da ordem do deus da técnica. 

Mas chamam do espírito, pensa o viajante, à doce brisa sobre vinte e dois exemplares de gado bovino pastando numa encosta cujo contorno contra o distante horizonte marca a curva dulcíssima do ventre da terra. 

E a este fundo sopro na copa dos freixos e salgueiros, sob a pálida luz da tarde finda, chamam também 


15/7/2012

(acontecimentos raros) p








Demóstenes ensaiando o tropo Laverca em Alverca. 

14/7/2012

A lógica







Sou visita de um pintor que desempenhou outrora o Alto cargo. Observo seu trabalho numa das telas, o curioso efeito obtido pelos contornos bem marcados nas faces da multidão. Ou não eram da multidão e sim de artilheiros da Grande Guerra? Ele está sentado no chão, sobre as lajes calcárias, guardando junto de si tintas e os pincéis, e exibe a pintura sem armação sobre as pernas cruzadas. Um tempo depois estou a observar outros quadros seus, abstratos, expostos numa das paredes da cave, mas estes não me agradam porque neles vejo Defeito (o erro lógico?). 

8/7/2012

Cautela







O oceano dos de antes dias alcióneos a meus pés. Do jardim contemplo-o, destes muros que suportam estátuas dos heróis e de ninfas com os cântaros. Da paz sobre as águas vem que sonhada música? Levanto-me do lugar que me destinaram, caminho lentamente sobre a gravilha branca, quase desatento dos canteiros e perfumes. As palavras pausadas de Presidente de Assembleia ecoam dos altifalantes sobre as Arquibancadas. Venho observar os meticulosos insectos num dos muros Átonos e procuro evitar que os meus Atos causem incómodo. 

8/7/2012 

Mentir sempre








Vento, vento e a ursa (Ventríloquo). 
Despertavam para a proximidade da casa, dos seus hóspedes. 
Só a velha mãe. 
Mostrando-se contudo impassível, durante o momento da metamorfose. 
E o corpo ergueu-se pesadamente, afastando-se da cadeira, virou-se lento, caminha sobre as tábuas rangentes. 
Leva um conhecimento. Árvores antigas, árvores negras. 
Vento de facas. 
Vê o mar. O dia está límpido e deserto. 
Vê a linha-férrea, com os olhos pode abandonar-se ao declive, até mergulhar nas profundidades. 
Vai caminhar para as instalações arruinadas. 
Avança ao acaso, mas depois imobiliza-se. 
Um telefonema sem nexo 
A treva ruidosa, o coração mecânico de máquinas impacientes. 
O chamamento ficou a ecoar no ar límpido, inutilmente, como um sopro nas paredes brancas. 
Uma duração instalava-se na luz
Apenas as aves. 
Ruidoso tráfego. 
Mentimos sempre (Ventríloquo?) 
A ilusão da imobilidade, a brisa leve, a luz que humedece os olhos. 
Num Junho inclemente estou sentado num pequeno muro a desmoronar-se (autor?), tirei uma laranja da árvore, espero impaciente que me abram mais uma porta, depois de ter percorrido os antigos caminhos. 
Não posso evitar a estranheza. 
Nas folhas agitadas pelo vento há frases que ressoam sobre a paciência da rebentação como se tivessem acabado de ser sido proferidas. (?) 

7/7/2012

Na camioneta








A grua na noite, tensa, é Arquitecta teofânica 
Luz com seus grãos morde a canela vã 
No interior da camioneta, viajantes 
E há um lago sobreposto 
A turistas reentrantes. 

5/7/2012