Secreto símio






Os seus olhos ficaram pequenos como um fruto negro, um fruto sem brilho. A minha atenção concentrava-se nesse fenómeno, mas logo alargou o âmbito da observação, detetando as linhas mestras da face, a estranha contorção que a desfigurava debaixo da lâmpada, o símio secreto que nela se expandia e depois se continha. Aquele homem vinha de um passado não muito distante (uma meia dúzia de anos) e agora apercebia-me de que ele tinha o raro poder do espelho, o motor estático de mata-borrão, o íntimo vento que absorve. Uma sombra esvaída, os fragmentos rasgados dela, convergiam para essa espécie de vórtice, ou desolação, ou símio. O poder centrípeto daquele homem não podia negar-se, mas uma observação mais aprofundada, ou uma pausa simples de reflexão, permitiam pôr a descoberto a Queda, a qual, em simultâneo, é menos e mais do que uma condenação.

18/10/2009




Corvo





Corvo desce sem hesitação dos pinheiros iluminados para a berma da estrada e pega no mundo pelo bico.

14/10/2009

Vassouras





Uma mulher transporta três vassouras. A luz ferve (parece ferver) na superfície dos prédios quietos à tarde. Paredes, vidros trémulos. Este traz na camisola o nome de Eufrates, o talho. Cores vivas como um grito. Se não olhares para a tua direita, nunca para tua direita, se dependurares os olhos como frutos nas árvores do jardim da forca, surgirá algo sob o pórtico, marcha nupcial, trombetas, jardim de infância, doces amêndoas, vassouras úteis.

13/10/2009

Óculos?



























Ou recuso-me a ler.
Ou ignoro o cânone.

8/10/2009

Óculos





Estão a ocorrer transformações no quarto (a cama foi arrastada para o centro do compartimento, como se fora uma arena). A disposição dos outros móveis também não é a mesma, mas a mudança é menos percetível. Uma luz forte, branca, reflete-se nas paredes (pintadas de fresco?), e a sua origem não é detetada. Penso que está escrita uma mensagem inquietante na folha de papel colada no teto, mas, na verdade, não consigo lê-la.

8/10/2009

Aves. Aranhas. Abelhas





Uns olhos abertos são o único estipêndio de Aurora. Sobre o estuário, furando a névoa, a fornalha exulta. Sobre estuário atónito de espelho. Há um pintor na berma, o expulso, o alheio a vossos mármores. E cavalo superando a cerca, de um branco pelo sujo. Aves. Aranhas. Abelhas. Incêndio.

2/10/2009

Corpos jazentes





Vi os corpos pequenos despenharem-se. Na súbita suspensão dos sentidos, debaixo da árvore, no pó levantado pelo rodado da camioneta, vi-os na berma, jazendo como um prego jaz. Corpos desistentes das aves num eczema de Setembro. Raros corpos imóveis na suspensão que precede a fuga do visível, aves que são a lâmina do anverso, desamparadas, densíssimas.

29/9/2009

Entusiasmo com ferros






A noite pluviosa tomou conta da floresta a toda a volta como uma mãe. Quase silêncio sob as árvores, quase como um deus adormecido. Mas não aqui, não neste centro em tumulto, na vertente rasgada pelas máquinas. Sob holofotes, os automóveis investem pela terra lamacenta aplicando toda a potência dos motores. Avançam loucamente numa das direções e depois de inverterem a marcha retornam ao vale que os oculta. Quem são os estranhos que os conduzem? Porquê frenéticos? Um tronco de árvore antiga protegeu-me, rodeei-a, cheirei o odor da casca húmida ouvindo um estrondo do outro lado e o entusiasmo com ferros torcidos.

25/9/2009


O Cartógrafo Renegado
Noite pluviosa como uma mãe