Anzol imaginado






Desceu as escadas do edifício posto na tarde estático, trazendo na frente, perscrutadora, a lanterna do espírito, caixa, embrulho, e nela dentro pequena luz congeminando um anzol com mínima ranhura no pé metálico, adequado a melhor o verme segurar. Minutos depois, confirmação estranha obtém na pequena loja das coisas piscatórias este sonho de anzol, pois ali a versão real à disposição lhe exibem, que nunca até então existir soubera (pensa).

1/11/2010




Navio de contentores






Vejo na névoa o novo colosso, dos contentores centenas. No esmeril do amanhecer, há uma opacidade no navio que, em vez de abrir o portão dos mundos, temo possa fechá-lo.

20/10/2010

(tartaramudo) 35





Volta Tartaramudo para junto da dama no cabeleireiro.
Rapariga com touca trabalha com mãos ágeis a cabeleira, onde um sol da tarde depõe reflexos de ouro.
Vê Tartaramudo o muro, que está defronte da mulher no passado.
Empurrou o largo portão de ferro, entra para o pátio interior.
O amado entra para o pátio, e uma luz a toda a volta ilumina a sua face.
Ela observa a luz sem centro.
A mulher abre os olhos e observa para lá da janela do salão do cabeleireiro um sol fechado na tarde, sobre a cidade do tráfego fechado, sobre a cidade ruidosa, fechado como uma runa.
O oficial da marinha sobe agora as escadas de uma igreja Sé e a dama do cabeleireiro segura o seu braço, avança lentamente com chapéu e o véu pelo interior dos seus olhos fechados agora.
A mulher vê o muro.
Tartaramudo vê a mulher, que vê o muro no passado do passado do presente.

20/10/2010



(tartaramudo) 34






Tartaramudo toma os seus apetrechos, retinas leves, as sapatilhas, mochila com a pouca comida, papel, e dirige-se ao salão de cabeleireiro.
Ventríloquo, sentado num banco, segurando no queixo pensamentos, tal de Rodin, imagina um anjo no exterior, um que não se pode olhar como sol explodindo sobre tambores de glória, mas a uma distância intransponível.
Na frente, a mulher interrompera por momentos a leitura de um texto que se serve da coisa palavra – lápis – como metáfora para falar dela, leitora, menina outrora, senhora quase idosa com os rolos na cabeça.
Lápis com que a mão de Deus escreve.
Lápis estóico diante da dor de ser aparado.
Lápis que é alma, a grafite, muito mais do que madeira exterior, oca, inerme, etc.
Tartaramudo observa que os olhos da mulher estão imóveis como azeitonas numa praça sob o sol. Há poeira, vento, uma mota aproximando-se com o ruído do trovão mecânico, a face do amado rindo atrás de um lenço de verão. A mulher ergue de novo a revista aproximando-a dos olhos, verifica a sua proveniência, trata-se de um produto da Igreja Total de República de Anjos.
Luz de pano doce visita a madeira dos armários, as mesas, as portas dos quartos interiores, corredor de longas tábuas, assim pensa Ventríloquo, assim pensa que pensa Ventríloquo.
A mulher diz num murmúrio «oficial da marinha», e a amarga saliva do passado vem ao salão de cabeleireiro, esgueira-se pela atmosfera perfumada como se fora traição, como se a palavra traição ganhasse patas e as asas e a carapaça de um insecto furtivo.
No passado, o amado de capacete como um guerreiro corre riscos que brilham nos olhos sob as nuvens, mensageiro de notícias proibidas, as ocultas como o lacre, o fumegante.
Ela olha no espelho a que rejeitou o amor dum suposto aventureiro, a que passeou os olhos docemente pelos cântaros, pela baixela.
Avião em que não se podia confiar.
Cachoeira onde haveria o arco-íris, cachoeira inexistente.
Com as suas sapatilhas, Tartaramudo atravessa o salão e sai para a rua do ruidoso tráfego, onde um ventríloquo na distância intransponível.

18/10/2010

Desde Roma/Areeiro






A multidão fluindo pela plataforma em direcção à saída sul, onde no exterior a ligação aos comboios suburbanos na estação Roma/Areeiro, e após um momento a hesitar os meus passos hão-de levar-me.
Num dia de arcos ofuscantes,
Arco sobre o estuário de etéreos três pilares velando o sol, de cegueira fonte, o ovo, 
Arco no tempo 
Entre um olhar quase turvo, quase ressentido num entre acto do passado
E o olhar quase não turvo, quase não ressentido.
Quando a noite cair sobre a estação suburbana
E a imaginação ágil nas justificações e nos equívocos agarrar no medo como num chapéu. Mas ignoro porque são os arcos, porque se dissolvem uns, porque se suspendem outros como sobre o abismo, enquanto uma luz difracta cria manchas de verde-esmeralda nas águas para a multidão cega.
Vem comigo sono, vem com o chamamento telefónico que não foi ouvido, vem com os demasiados factos, a gente demais, corpos, 
Vem até à cidade do futuro, a que na abóbada nocturna se expande em luz
Invisível.

11/10/2010







Na noite no Cértima






Os ramos dos espinheiros nas margens do Cértima, patos e os pavões, muros pintados de fresco, os muros defrontando o primeiro vento do Outono. Um casal enlaçado nas margens do lago, silencioso na luz, silencioso no vento como ave de prodígio e fome.
«Até tem cemitério».
E as figuras nas cadeiras de praia.
Automóveis à escala, por vezes não.
Imóvel, na tarde, o comboio vai como o ar fatal por dentro dos pulmões do íntimo.
A padaria.
O liceu.
Útil ambulância e a enfermeira.
Torre, escola, igreja, café.
Fábrica, gasolineira, cabeleireira, garagem, tribunal.
Esta edificação de sonho levanta voo no tapete para além da casa de campo, sobe aos céus, sobrevoa a linha de água enquanto vou comendo da farinheira grelhada, da chouriça de sangue, bebo o vinho.
Casal silencioso na luz, silencioso no vento erguendo para os filhos um mundo simulacro e incêndio, de amor incêndio luzindo na noite brasa, clarão na noite obscura, na incompreensível, na noite caindo no Cértima. 

5/10/2010

(O Grande Palmípede) XXVII






O viajante pensa na geografia com a mente mal iluminada.
Pensa como estrutura abstrata de escada, os módulos.
Mas não ou não.
Tenazes apertam a sua garganta, explodem na mente os castelos, o incêndio.
Como poderá libertar-se dos demónios de motor e êmbolo?
«Vai», diz-lhe a iluminada. «Vê»
Estão as coisas transversais, os estratos.
Estuário como faca invadida pelo mercúrio.
Floresta, os comerciantes ocultos.
Rapariga alta vai ao café com as nádegas.
Arrozais imóveis.
Estabelecimento prisional (antes, a bifurcação).
Nova floresta com fábrica dentro.
Mãe jovem com filho na berma.
Velhas instalações industriais que os silvados invadem.
Escola de outrora nos campos geados, sob céus impassíveis.
Torre para um destino cinematográfico. 
A Torre que o viajante observa.
A Torre.

28/9/2010

(bestiário paradoxal) 36







As mamas da rapariga tinham caudas de coruja das torres (desenhadas).

22/9/2010




Guardiã de costumes






Trouxe suas armas a guardiã. Corpo e os olhos de vivípara, e assentou arraiais. Óculos, calças, sapatos, as camisolas. Tem seus contactos com uma judiciária conjugal, ou mesmo um martelo pilão. Em sonhos empurro-a pela escadaria abaixo. E ela com os olhos de pérola falsa, ela acena-me à compreensão. Tudo compreendo? Guardiã, marido, a oculta, Oh!

22/9/2010



As barbatanas






À hora morta do restaurante de peixe, na matutina saliva dos deuses sobre a cidade dos homens, debaixo da rósea toalha e dos pássaros cantantes, e do hálito de Afrodite com sono, a mulher de vestido azul celeste estacou de súbito, interrompeu a marcha.
Na vasta montra espelhada, depois de um ou dois passos dar para trás, ela contempla, na intimidade oculta do restaurante a uma hora morta, as nádegas suas contempla, as barbatanas delas contempla, acenando saudação ao novo dia, à luz sobre as coxas, como de um guerreiro, dardo, essa luz contempla, como de um arconte.

22/9/2010