Audácia de Tunas






No vértice da bifurcação, para ali convergiam as duas forças ou as duas ordens, e uma sombra tinha ali ovo. No coração desarmado faíscam sabres, nos carros estacionados como se foram insetos doentes, segregando baba, zebre. Convergem homens e mulheres com seus arames de Aparência e Ostentação de dinheiro, poder, com seus vincos lívidos nas faces, medindo, medindo. 
Mas convergem as flores nupciais, Hálito da estrela dos mares.

E há no hotel o de cobiça olhar dos comerciantes.
Mas há as raparigas com asas.
As que se perdem por Austrália e piscina.
As que estão imóveis com almas confusas.
No da bifurcação vértice, nos restaurantes de Eventos com tropismos e cavername tenebroso na sombra, na sombra, na sombra destes corpos que simulam a Feliz audácia das tunas.
Vi e fugi com lanterna e Hora.

A pergunta que me faço não tem resposta ainda, regressa à deslocação pelas velhas ruas de edifícios decrépitos em cujas janelas as senhoras idosas espreitam os animais de carga de outrora

E regressa a um homem assombrado com o filho doente.

E regressa a um gesto de agressão pairando como Funesta Figueira sobre quatro vidas.

Porquê?


26/9/2011

Palácio LXII







Na sua frente, a luz refletida nas vidraças da porta dupla quase o cega. Enquanto se aproxima, move o braço e a mão direita em direção ao puxador. A luz irradia de todas as direções, dizem-lhe os olhos semicerrados, de cima, do céu expandindo-se, do longínquo horizonte de pérola.
Bentes vai abrir a porta, mas há uma hesitação vinda de onde? Da luz?
Vira todo o corpo para o lugar que acabara de atravessar e uma imobilidade de dardo irreal prende-o ao passado.
Onde o anjo com suas asas de nave futura, com o manto púrpura?
Onde o guerreiro com o lírio, em genuflexão sobre flores levitando?
Vê o caminho de areão vermelho.
Vê Bentes o pequeno muro reparado de há pouco, árvores de copas escuras e nítidas como oráculos, como guardiães que farão o seu dever.
Fecha os olhos e abre-os de novo para a mulher jovem de rosto incendiado pela luz, cujo braço esquerdo esboça um gesto de susto frente ao anjo, um gesto interrompido logo.
Palácio, cintilação e imobilidade.
As montanhas na névoa, o porto para os navegantes.
Anjo e o luxo.
Enigma.
O corpo vindo do passado retoma o gesto cortado cerce, empurra a porta que se abre como a Vento Grande.

24/9/2011

(acontecimentos raros) i







O que perdeu os mouros em Covadonga foi a pressa por Hermengarda.

21/9/2011



(bestiário paradoxal) 40







A gaivota atingiu-me com os dejetos na base do nariz, entre as sobrancelhas e uma cegueira de provérbio, a ave do deus que ri distintamente.

21/9/2011

A Cédula







Os sentidos souberam de imediato que a devastação habitava a luz, ou «era da luz», provindo do exterior pelas altas janelas de guilhotina. Entre mantas e os bancos buscava refúgio no soalho como tantos, imóveis, expectantes, atento a quem devo proteção, mas percebi que não há bordão, apenas alarme, pedra. Observo os visitantes caminhando à volta da mesa com as listas intermináveis, as eleitorais hipérboles, os bolsos e carteiras com os pregos. Observo e reflito na proposta que irão fazer e na resposta que devo dar, os limites de cédula, os inultrapassáveis.

20/9/2011

(bestiário paradoxal) 39







Olhei na manhã do porto a gaivota de olhar duro chamada anomia

8/9/2011



O espírito pelo nome







O espírito divaga pelos campos catalaúnicos, pelos campos, não, pelo nome da batalha, cortina opaca, teodolito. O rei dos visigodos jazia entre os chacinados quando te aproximaste. «Não tenho moedas», murmurou a minha voz indiferente, ao mesmo tempo que exibia a carteira. Aceitaste a justificação como se fosse verdadeira, mesmo se era verdadeira, e ocupaste o lugar a meu lado como se fosse teu, ou o conquistasses com observação útil. Arrumar o carro num parque de estacionamento repleto é a tarefa homérica. As mãos e os pés fazem o seu trabalho, mas a máquina parece ter vontade própria, descai, resiste, aceita depois surdamente a determinação do condutor. Agora devemos abandonar o automóvel, mas como fazê-lo, se de cada lado há carros estacionados, impedindo das portas a abertura? 

8/9/2011

(bestiário paradoxal) 38






Sei que o velho leão percorreu devagar todas as veredas da colina. 
O fim da tarde, as suas sombras, foi cenário para essa ascensão pelos caminhos de pé posto, entre as casas de campo, árvores de fruto, muros altos, silvados, os grandes ruminantes imóveis no restolho. Mais tarde, um treinador de feras recolheu-o nos seus curros, engordou-o, deu-lhe bons tratos e tendo-o anunciado no mercado, veio a vendê-lo ao primeiro comprador interessado. 
Quando a notícia me chegou, dirigi-me a casa de André Malraux.
É ele, esse velho que me espera num alpendre das traseiras, vestido de negro como um cangalheiro, magro, decrépito, guardando a sua aquisição. Que o leão estivera no passado na minha posse, e depois de uma longa vida sem incidentes de maior a incompreensível fortuna perdera-o até este momento, mas agora, digo-lhe, um entusiasmo novo faz-lhe brilhar a juba, os olhos amarelos, os flancos.
Não hesitou um só instante Malraux, depois de ouvir as minhas informações e tendo afirmado «tem que ser solto», acompanhou as palavras com os gestos que libertaram a besta.
Devo confessar que uma preocupação passou visitar-me em casa, porque não esperara decisão tão súbita
Mas não só a preocupação.
Com ela vinha de visita o velho leão, saudoso dos velhos tempos e eu observava-o de viés. A meses seguiram-se meses. Sucedeu finalmente o que tinha de suceder. O animal agachou-se a meu lado, coberto de sangue, a última luz do poente refugiou-se turva nos seus olhos, e ele olhou-me para dizer – «ainda dou cabo de mais dois ou três deputados».

5/9/2011

(bestiário paradoxal) 37






Se o que vou descrever pusesse em risco a explicação venturosa dos mundos, teria escolhido o esquecimento, ou antes, seria escolhido pelo esquecimento, o olvido.

Há um refúgio do crepúsculo chuvoso, antiga casa de aldeia estendendo-se à beira da ribeira que transbordou. Sob a telha vã observei os desolados campos açoitados pelo vento, caminho devagar pelo sobrado de velhas tábuas, vejo alçapão aberto sobre as águas negras e é aí que a minha atenção se detêm. O animal tem o pelo branco sujo, ergue-se da enchente, tem olhos melancólicos, indiferentes e a estranheza visita-me quando compreendo que Elefante.

4/9/2011