Sem mestre








Nuvens costuradas numa alfaiataria sem mestre e sob elas tão tudo é ênfase e catálogo.

15/11/2010

(acontecimentos raros) c






O Almirante Nelson visitando o local da batalha de Trafalgar com um grupo de cicloturistas.

11/11/2010

(acontecimentos raros) b






A viúva de Salazar distribuindo milho aos pombos no Terreiro do Paço

11/11/2010

(albatroz poeirento) 27







Ele ama as tempestades e as tempestades amam-no, sobretudo quando as pernas tem à lareira quentes, e gata no colo, mas não só (de albatroz pensamento).





8/11/2010

(albatroz poeirento) 26







Querer ter razão não chega. Ter razão no passado é pouco ainda, se os viajantes de olhar baço escolheram ser roubados no restaurante da autoestrada. Foi então que o pé esquerdo tomou o freio nos dentes (estranha expressão de albatroz) e a força que deveria ter imprimido na embraiagem foi aplicada no travão. Um alicate invisível (expressão outra estranha) agarrou o carro, fê-lo guinar para a direita, ameaçando capotar, para a esquerda depois, por dentro do da borracha queimada fumo. Porque tardou albatroz em levantar o pé do travão?

8/11/2010




(albatroz poeirento) 25







«Um cacto espinhoso!» gritou albatroz, dando um salto. Tinha sentado as nádegas em cima da justiça. Seguidamente limpou meticulosamente as feridas com álcool canforado e refletiu sobre a melancolia. Albatroz havia atravessado longamente os desertos do oriente de vegetação escassa e os desertos do ocidente de escassa vegetação, e viu escrito na Berlin- Alexanderplatz que quem vier perguntar se existe justiça neste mundo, terá de se contentar com esta resposta: para já, não, pelo menos até esta sexta feira. Interrompeu então a leitura e sorriu brandamente para a almofada, acreditando saber o que quis dizer Döblin. Mas nada sabe albatroz. Ignora mesmo se o assunto lhe continuará a interessar no fim de semana.

8/11/2010

Palácio LXI






Foi um dos Dióscuros que surgiu da luz dourada, súbito como um felino dos montes, do orvalho dos montes, exibindo mercadorias, avatar para jardins abandonados.
Bentes viu o lago nos olhos, nuvens, a sombra.
Sob o relâmpado, animais em fúria, os fumegantes.
A mando do deus, submeteu-se, depois de negociar, depois de estender a verdade ao sol como uma roupa.
O bando dos irmãos aplaudiu surdamente, acenando as cabeças em aprovação.
Assim Bentes leva para casa a água-de-colónia imprestável e atravessa precipitadamente a praça.


6/11/2010

Ônfalo







Na atmosfera da manhã, na transparente veste, o ônfalo é a ave no voo.

5/11/2010

Casaco vermelho







Casaco vermelho abandonado na berma da estrada pertence a que alfabeto do deus? Dos viajantes?

5/11/2010




Cone de sombra







Na depois manhã rasgada por luz rosada, mecânico motor de obsessiva presença pelo espaço de rua fora disseminando-se, onda, névoa em fúria perseguida por espírito, a lanterna monótona negando-o, negando motor acelerado por trabalhos incompreensíveis, confinando-o ao cone de sombra, extinguindo-o.

1/11/2010

Insetos na lanterna






Noturna barata junto do lambril correndo, correndo, para e de novo corre na noturna luz amarela projetada sobre seu mínimo corpo. Outros se aproximam na noite, insetos, zumbidores mosquitos, pequenas moscas por outono ameaçadas, mínimos corpos de carapaças finas. De onde se aproximam, e como entrar puderam na perscrutadora lanterna do espírito, caixa ou embrulho por onde dentro parecem seguir, apesar de, na noturna sombra exterior aos sentidos, por fora do corpo irem?

1/11/2010

Anzol imaginado






Desceu as escadas do edifício posto na tarde estático, trazendo na frente, perscrutadora, a lanterna do espírito, caixa, embrulho, e nela dentro pequena luz congeminando um anzol com mínima ranhura no pé metálico, adequado a melhor o verme segurar. Minutos depois, confirmação estranha obtém na pequena loja das coisas piscatórias este sonho de anzol, pois ali a versão real à disposição lhe exibem, que nunca até então existir soubera (pensa).

1/11/2010




Navio de contentores






Vejo na névoa o novo colosso, dos contentores centenas. No esmeril do amanhecer, há uma opacidade no navio que, em vez de abrir o portão dos mundos, temo possa fechá-lo.

20/10/2010

(tartaramudo) 35





Volta Tartaramudo para junto da dama no cabeleireiro.
Rapariga com touca trabalha com mãos ágeis a cabeleira, onde um sol da tarde depõe reflexos de ouro.
Vê Tartaramudo o muro, que está defronte da mulher no passado.
Empurrou o largo portão de ferro, entra para o pátio interior.
O amado entra para o pátio, e uma luz a toda a volta ilumina a sua face.
Ela observa a luz sem centro.
A mulher abre os olhos e observa para lá da janela do salão do cabeleireiro um sol fechado na tarde, sobre a cidade do tráfego fechado, sobre a cidade ruidosa, fechado como uma runa.
O oficial da marinha sobe agora as escadas de uma igreja Sé e a dama do cabeleireiro segura o seu braço, avança lentamente com chapéu e o véu pelo interior dos seus olhos fechados agora.
A mulher vê o muro.
Tartaramudo vê a mulher, que vê o muro no passado do passado do presente.

20/10/2010