Fervor mecânico





A mulher em flor tinha uma redoma a toda a volta dos seus motores. Ela envergava uma bata e mostrava-se capaz de trabalhos rudes, mas receando a debilidade fatal na arte da representação. Numa fria noite, num inverno deveras, a redoma fez-se máquina de névoa a trabalhar em roda livre e para ela convergia o material estelar, e as dunas convergiam, e os barcos de silêncio, imóveis com lanternas, embora todo este fervor mecânico fosse em vão.

2/12/2008

(O Grande Palmípede) XX






O viajante verá a proliferação, os vermes agitando-se convulsos no último degrau. Esta observação será acompanhada de reflexões sobre o equilíbrio dos acrobatas, sobre Queda iminente.

E há a testemunha indesejada, de que deu conta tarde, em alarme.

Entre um e outro facto, a realidade resistiu (uma corda desfiou-se, apodrecida, da vontade e não).

Após uma série de decisões, que são suas (mas serão verdadeiramente suas?), o viajante quis a luz esplêndida sobre o vale, rede dos choupos, silvados, troncos derrubados nas margens de um regato, obstáculo e jogo, sem nunca se separar do medo e das razões incompreensíveis no medo.

A autoestrada faz parte do cenário, o trânsito infindo.

Porque cenário para uma representação, onde o solilóquio e figurantes perdidos nos sonhos deles, e passantes que acenam a saudação.

E ainda a beleza como espectro, pedra dura de luz, a evanescente, em fuga dentro do tempo, na amálgama dele.

O que viu o viajante? A que está cego?

No interior da sua cosmogonia o viajante está enredado, pensa. Porque o pensamento é apócrifo, pertence-lhe e não. Um pensamento que não resiste a ter como objeto ser de si próprio a coisa, objeto pensado e não, mas sempre simulacro de algo fora, longe. 

Aparentemente, a representação que para si elabora das coisas exteriores, de um vento súbito, da luz que houve, do incidente funesto, não dependem apenas dos veros objetos. Certamente existe aí a proximidade do paradoxo, mas talvez mais, ou depois. É uma insuficiência da linguagem, pensa o viajante. «E a insuficiência é em mim».

Portanto, ele reconhece a verdade dum desencontro, mas como pode aceitá-lo? Não pode. Ou melhor, pode e não pode no interior das arcadas e dos pórticos, e no aviso adivinhado da catástrofe, e no incessante esforço de pensar. «Um perpetuum mobile», eis o que segreda a si próprio, mas sem conceder crédito.

Caixa absolutamente fechada.

Talvez três fotografias, ou cartas de um baralho, ou algo «fora de ordem», pensou o viajante.

Noite.

27/11/2008

Telefonema




Não conseguia respirar o ar que todos (quase todos) respiravam. Durante anos, cerca de três décadas, varreu-se a si próprio para debaixo do tapete, na proximidade dos aeroplanos e das açucenas. Agora telefona, dada a extraordinária agitação atmosférica.

26/11/2008

Passeio de bicicleta





A de decote em adaga sofre metamorfose na funcionária dos serviços de saúde. Com veemência desdenha do propósito de uma aurora a refazer, repete palavras sensatas contra a promessa dos anéis perfeitos, tem bicicleta com que se desloca pelos corredores. Ouço-a com atenção, observo os seios que pedalam para além das salas dos arquivos, muito para além dos derradeiros átrios, entre colunas pedalam. Não tive dificuldade em reconhecer que tinha razão. Caminhamos sobre as lajes de mármore. Ela abandonara a bicicleta nos seus aposentos e acompanho-a no regresso. Mas regresso a quê?

24/11/2008

A desconhecida





Irrupção da língua desconhecida, vulcânica, a rasgar o sono dos mundos.

18/11/2008

(máquinas perfeitas) 43





A pausa – No telefonema da dúvida insistente, no plano inclinado dos contactos breves, sociais, na dura percussão da mulher alta e tacões altos, na dormente mágoa dos cenários, na batalha dos ventos e dos grifos.

14/11/2008

(albatroz poeirento) 20





Utiliza um método, albatroz. Contempla a coisas na paisagem, os estratos, as casas conformes, as nuvens vestidas de organdi, demora-se no vento que atenta o pudor das árvores e tira conclusões. Chama-lhes «significado». Apenas o confunde que umas vezes venha acompanhado da sensação de ameaça e noutras vezes da sensação de farda militar ou de aquecimento central. Demora-se um pouco nas sensações, mas para essa observação não apurou método.

12/11/2008