A carta





No limite, na extrema porta depois de passares os arrozais, esquecidas as dunas, os misteriosos corvos, quem espera por ti? Quem, no funil? Aquele que vem, aquele que olha como um lobo, o que está preso num dos círculos, pode disparar e pode não disparar a arma que traz no bolso. Não o faz. Lerás a carta esquecida.

10/2/2010

Palácio LX






A atmosfera do salão sofreu uma transformação quase instantânea, «uma mudança de fase», pensou Bentes, mas esse pensamento foi atravessado por outro.
«Com o ar de vidro o ruído diminuiu».
O salão era um átrio hospitalar, um espaço vasto, repleto de uma multidão que esperava (os doentes esperavam, os familiares esperavam, etc.).
A sensação de alarme fora acompanhada pela aguda consciência da sensação, e esta consciência agarrou Bentes com as suas garras, fez girar os ponteiros dos manómetros, jatos silvavam, de máquinas como animais amedrontados.
A mulher não parava de falar, ela tinha os olhos cravados em Teresa.
As palavras que proferia, monótonas como seixos rolados.
Os olhos da mulher eram duas setas tensas ferindo.
Teresa está ferida, soube Bentes.
Bentes viu culpa no alarme próprio e observou em si a repulsa que a mulher, a desconhecida, ou a ação dela lhe causava, e tentou dar nome às razões dessa repulsa, e o nome que lhes dava ensombrava-lhe as feições como um fumo. 
«A morte é uma mulher rústica?»
«Uma que a quem foi recusada toda a graça e as mínimas maneiras da graça?»
Tempo depois, Bentes acharia as palavras para estas perguntas, mas naquele instante, na duração em que a rústica aspirava para dentro do poço dos olhos o espírito de Teresa, as perguntas chocaram os confusos ovos seus.
«A morte tem marido entroncado, um de retinas esbugalhadas?»
«Retinas de galinhola?»
O homem da rústica vigiava na sombra, encostado a uma parede, e na sua face havia o que precede o espanto, o que não alcançará o irradiante espanto.
Esse homem é uma espécie de guardião brutal.
Imóvel no pórtico do pórtico.
Quando no passado os seus olhos se distraíram do horizonte longínquo, e quando uma espécie de enfado o tinha levado a afastar-se do vasto vale, que se resguardara nos seus pensamentos, pudera observar o interior das instalações hospitalares a que certas circunstâncias pouco esclarecidas o haviam conduzido. 
Pensou que os longos momentos de espera, nos corredores brancos, limpos, preenchidos por uma luz doce, favoreciam a arte de ver a quem se dispusesse a ver. Mas hoje não se permite a condescendência de aceitar que ao menos parte daquele mecanismo de relojoaria lhe era revelado.
No exterior do edifício, o decaimento da luz na tarde de inverno prossegue a um ritmo inexorável, contínuo, mas a maneira como as zonas de espera dos doentes e acompanhantes se enchem, e depois se esvaziam, parece depender de determinações caóticas.
A porta automática deslizou suavemente, abrindo-se.
Bentes acompanha Teresa pelas escadas que conduzem ao parque de estacionamento. Aí chegados dirigiram-se sem hesitação para o automóvel, e havia uma alegria descendo pelo vale, e no ar frio os olhos dos estranhos reprimiam o alarme ou a memória dele.
Aquele que era guardião imóvel e entroncado está de pé junto do carro estacionado atrás do de Bentes.
Está de pé junto da porta aberta e tem uma mão pousada sobre a capota.
A sua mulher tem o olhar como uma lança no passado, uma lança fatal, um dardo da infância no interior do carro. Está sentada no banco frontal à direita.
Bentes e Teresa abandonam as instalações hospitalares.
«Um carro velho», pensou Bentes. 

31/1/2010

Intrusos





Até este subúrbio chegou a febre que transforma sótãos em centros de congresso. A notícia foi-me dada por um homem que cuidara da carreira como de um jardim de acantos. Falou amavelmente, convidou-me a espreitar as «obras em curso», mas nada esclareceu sobre caninos, os intrusos.

20/1/2010

A cegueira





Vi pela janela a luz sobre o lago, o tumulto nas margens que um vento tingia de ocre, águas em que a melancolia tinha trono. Percebo que é tarde para ir ao encontro da paisagem, percebo as distantes aves. Palavra de segredo, um sorriso, as vitórias esplêndidas, tudo me pede que confie. Mas faço-o? Olho o lago estranho, olho-o enquanto recordo a montanha áspera, o vale, máquinas, duro trabalho, a cegueira. Faço-o.

20/1/2010

(O Grande Palmípede) XXIV






O obituário surpreendeu o viajante. Mas obituário que não obituário.

Havia-se deslocado pelo aluvião com muros de tijolo estendendo-se até aos limites do horizonte nos canaviais da planície, no vento categórico. 

O jornal foi metrónomo, foi medidor e laço de uma vida que atravessou fronteiras, demorando-se nas margens do rio interminável, em busca de oráculo nas cidades. Foi como fuligem?

«Uma estação no passado», pensa o viajante, mas soube-o depois de pedir auxílio na paisagem desolada. 

E gritou aos que caminharam em silêncio pelo vale que a enxurrada vestira de lama, e viu a pobreza deles, e viu as montanhas distantes.

Viu o castelo nas fotografias, a muralha dos segredos, da fome turva.

E o armazém a seus pés, destelhado.

Aranhas. Sombra.

No parque de altas árvores interrompe a marcha a decifrar o obelisco, simulacro de lei, esboço, 

O viajante vê o corpo deslocar-se para a proximidade do mar, o uivante, mas essa deslocação não era verdadeira, ela rodeava uma das possibilidades do passado nas paredes corroídas do forte (ou da alfândega, ou do convento) e as aves do mar eram pródigas e lúgubres, e o corpo era evanescente como pluma arrastada pelos ventos pródigos, lúgubres.

No comércio colorido, nas suas ruas de fagócitos e bolor, há movimento demais para olhos velhos.

Há automóveis arcanjos.

O viajante tinha atravessado a rua caminhando obliquamente desde o café em que a rapariga loura tomava chocolate quente até à escadaria da biblioteca municipal. Subiu-a, ultrapassou a porta envidraçada. 

Sentou-se depois na cadeira para ler do morto as palavras:

«Se velho guardião interditar a passagem por amor da cabeleireira, uma envelhecida, tu caminhante, tu desconhecido, respeitarás a ordem sob o céu de cinza.»

18/1/2010


Mortes





Quantas de Pompeu Magno haverá, mortes tantas?
Quantas nos passados todos e outros possíveis?

15/12/2009

Espetáculo do poder





O movimento das habitações urbanas em torno do seu eixo imaginário é um espetáculo difícil de ignorar. Não tive alternativa, desci apressadamente as escadas para o rés do chão e necessitei de perícia para aproveitar os poucos momentos em que a passagem para o interior da cave ficava livre, nos acasos da rotação. A hostilidade do homem que se apresentava como senhor daquele lugar encontrou-me desarmado, sem capacidade de resposta. Eu sabia do seu poder delegado, mas foi inútil o meu esforço, senti-me ridículo quando me recusou o número telefónico de Ausente com a desculpa de que não se tratava de uma situação de emergência. «Um poder apócrifo», segredava-me o motor das palavras, numa fórmula nem sequer justa. Já antes havia experimentado a mesma sensação de inadequação. Cabritos oferecidos, para venda numa Páscoa, meu Deus, tantos! E em pleno centro da cidade, atravessando-se no trânsito! Uma sensação à porta da estranheza. Mas não para as duas senhoras idosas, sentadas com formalidade no anfiteatro improvisado, esperando sem impaciência o espetáculo.

8/12/2009

Casaco novo






Um casaco novo para Endríago, devorador de virgens.
Um na chuva de dezembro, indecifrável como o ar.

7/12/2009


O cartógrafo renegado