(O Grande Palmípede) XVII






O viajante hesita diante da vala. É assim que deve nomear a água barrenta? Não tem tempo de pensar, está imóvel e observa, está imóvel e sente a surpresa de ver um desconhecido atravessar tão facilmente o obstáculo.
Portanto ele vê o homem dirigir-se para cá afoitando-se a pé pela lama invisível, mas afinal coberta por não mais que um meio metro de água.
Está imóvel e conjetura num artifício humano, vara apropriada, algo improvável, uma fantasia.
Uma hora brusca interrompe-o aqui.
Uma hora conhecida do corpo com a precisão de relógio.
Esta interrupção fortalece nele a necessidade de reaver o passado próximo. Mas é esse o nome justo? O passado próximo?
E o que foi esquecido? O que já está esquecido?
O viajante faz o esforço, quer o propósito, ele é o movimento para esse alvo.
Para a água límpida que ocultava lajes, submergia-as numa duração aquosa com limos, as cores, as figuras atentas de tantos desconhecidos concentrados na estação ambígua.
Para os muros enegrecidos ao longo de um cais, as pedras de ferrugem.
Na sua proximidade tantos prosseguiram o seu destino.
Para os animais marinhos na pequena baía, os raros animais amáveis, de pelo sedoso, afáveis como cães domésticos, com os focinhos estranhamente idênticos aos dos cães domésticos, mergulhando e reaparecendo, ágeis, confiantes.
Para as salas ao abandono, com os detritos, destelhadas, devassadas por uma luz de cinza, para o vento húmido através das feridas das portas, das janelas.
Para o momento em que recuou na plataforma demasiado estreita.
Havia o polícia indiferente.
E pescadores em silêncio.
Para a povoação que não se parecia com nenhuma conhecida, de ruas desertas, não hostis, para a povoação que atravessou lentamente, cruzando-se com nada, ninguém, ou olhares velados por cortinas.
Campos outonais, sonâmbulos.
Para a estrada de grande movimento entre os plátanos de um crepúsculo de dura sombra.
Para a rapariga desconhecida, sentada sobre um muro, a acrobata na quase noite, com quem não trocou um único olhar.
Para o instante em que decidiu mudar o sentido da viajem, murmurando para dentro de si «creio saber onde estou, é tarde, seguindo nesta direção chegarei à estação ferroviária».
Para o centro comercial cuja construção havia sido interrompida, de paredes por rebocar, de enormes vidraças aguardando um uso. Que famílias eram, erram, deslocando-se num ócio de domingo?
Para o jovem a quem fez a inútil pergunta, a pergunta para nenhuma resposta.
Para o instante em que percebeu as sem razões do alarme e dos avisos de alarme porque não havia motivo para fuga nem justificação para interrompê-la.
Para o árduo trabalho dos que limparam o veneno derramado.
Para o ameaçador veneno derramado no asfalto da estrada ascendente.
Para o que estava antes (atrás?), nunca identificável, já opaco.

5/3/2008

Um incêndio na cúspide






Uma luz crua vem para este poço, para a funda cisterna espelhada, para ela converge.
Um céu pálido vem, a vegetação escassa.
Na terra arenosa a vegetação de espinhos vem.
As crianças que têm trabalhos, elas transportam os recipientes com água sobre as cabeças ávidas, também vêm, afastam-se mas há a cúspide em cujo centro permanecem, afastam-se mas permanecem, vêm.
O olhar dos pais, o olhar de amor dos pais, o olhar permanece mas converge.
O olhar de amor na pele, nos vestidos leves.
O incêndio do desejo dos pais no olhar e aproxima-se.
Na terra arenosa, seca, a casa em sonhos no planalto ao abandono.
As frágeis proteções de plástico, os farrapos rasgados, eles acorrem à negra cisterna.
Perseguem-na.
O plástico obsidiante, destruído e destruído pela intempérie.
Perseguem-na até uma fronteira, a fronteira que não há, o termo.
Uma ponte é essa fronteira em sonhos, uma ponte em ruínas onde de novo a luz crua, sempre a luz crua e nela uma face possuída pelo terror e o júbilo, uma voz que diz a bondade e diz o incêndio da bondade, e diz o deus explosivo na ponte sobre os caranguejos, e também ela converge, a ponte decrépita converge e vem até um incêndio na cúspide que a faz ruir.

29/2/2008

Espécie, fitas





A espécie humana (deixa muito a desejar?) e as fitas vermelhas por detrás da montanha.

29/2/2008

O Cartógrafo Renegado
(Fitas Vermelhas)


(Máquinas Perfeitas) 31





Ovo – No âmago um jardim, um Éden.

27/2/2008

(a estrangeira) 23





Sou convalescente na névoa, o peixe adormecido num enxofre do ocaso, permiti que um sopro me arraste lentamente, com misericórdia. Como poderia resistir-lhe, atada a um sono, uma derrota? Não os vossos olhos, não o vosso olhar me pode valer no último pó de Edasich, repelida pelos infortúnios da gigante hiena, na espera de que o ciclo se cumpra. Nem me segredem que o tempo é nada; não há a dor na extinção, na espera?

27/2/2008

(Máquinas Perfeitas) 30





Três irmãs num prado – Amam um Jesus da América e espalham a notícia. Têm dicionários.

26/2/2008

Empregada de balcão




Que a tarefa postal podia destruir um mundo. Anteviu os gestos de minúcia, a marcha sob plátanos, uma empregada de balcão chamada destino, tudo pôde antecipar pela noite dentro, dentro de insónia. Não o não sentido.

25/2/2008

(O Grande Palmípede) XVI





Antes que os olhos se apropriassem do que lhes compete apropriar-se o viajante apurou o ouvido porque na obscura noite há o ressoar mecânico.

«O tumulto repetitivo é apelo, mas simultaneamente reconhecimento», pensa o homem que já não é dono do corpo em movimento. Avançou portanto e sentia um vento áspero na gola do casaco de inverno, as rajadas que sopravam de uma montanha que talvez permanecesse onde sempre permanecera.

Penedos e marcos geodésicos contra uma coerência ameaçando colapso.

Com esforço de todo o corpo empurrou o grande portão metálico que resistia aos seus esforços, chiando lugubremente e depois decidiu-se a cerrá-lo, travando o ímpeto da treva e vento.

Diante do viajante há os focos de luz que se denominavam petromaxes e se denominavam lanternas e eles interferem com a disposição das máquinas ordenando-as aos olhos do viajante da forma que ele adjetiva inesperada. «Mas é um erro da imaginação».

Há homens atarefados, quase espectros são essas figuras, que se movem com desígnio entre as máquinas. O que os move apoderou-se de toda a sua perícia, eles nenhuma outra coisa são senão essa perícia entre roldanas e as correias de transmissão da força motora. 

Trepidação, alheamento, os ébrios!

Um ritmo percutido, obstinado, um êxtase da velha indústria inunda todo o pensamento e as potencialidades do pensamento. Nos abstratos arcanos o viajante noturno tenta perceber o propósito. Que propósito é seu? O que quer o corpo?

Cruza-se com desconhecidos de olhos baços, mas estes ignoram-no.

Na verdade segredam-lhe que algures, entre fuligem e o pó há o motor.

Para onde se dirige o viajante?

Para o motor?


25/2/2008 



Paragem de autocarros





Um homem que trazia a gabardina debaixo do braço. Na sua mente organiza os estratos da cidade em atividade, cidade de máquinas, de trânsito, de pó. 
«Não. Apenas recebo com os meus sentidos o que se denomina um fluxo, as sensações», cala a sua mente.
Um estranho esteve na proximidade do homem das sensações e ele observou-o com atenção. Pode-se dizer que mediu, que comparou e que refletiu longamente sobre as injúrias do tempo no corpo próprio.
Nas fezes do corpo próprio.
«A este dispositivo chamam paragem de autocarros».
Deste lugar retomam o seu destino os que querem retomar o seu destino. Alguns não o fazem, quedam-se imóveis. Porque haveriam de partir? E para onde partir?
Também o homem da gabardina se decide pela espera, apoiou o corpo numa das paredes de vidro da estrutura quase etérea, da construção precária que oferece segurança, a falsa. Claro que esta cidade assolada pelo pó tem no nome edifícios e os jardins suspensos duma balança que o tempo come sob céu de vitríolo, a leve púrpura, ocultando as fezes.

21/2/2008

(Máquinas Perfeitas) 29





O jarro de flores – Porque a possibilidade de deceção está sempre presente, as flores decepadas são murmúrio e a crueldade antecipada na imaginação.

20/2/2008