O caprichoso



Vi o deus de outrora na copa verde, vi a dança do volúvel, vi riso e desdém, vi o riso. Se fora a máscara votiva, esse resíduo, todas as razões serviriam para clamar contra o anacronismo na luminosidade em queda, na sombra, a vã. Mas não. 
Vi o caprichoso, ou demónio esquivo.
Penso que se fez anunciar por sinais equívocos, que foi incêndio no sistema elétrico do automóvel e o esforço de apagá-lo, os precipitados gestos, a estranheza deles, a reflexão ressentida, quase ressentida, no momento da derrota.
Um tempo antes, um dos avatares de política atravessara a rua sob a penumbra do ocaso e interrompeu o movimento estacando no asfalto com fato de bom corte. Deixava-se observar ou observava? 
Ignoro se me condenou ao afastamento o deus ventoso.
Ignoro porquê?

19/8/2008

(máquinas perfeitas) 38




As luas invisíveis – Lâmpada amarela; choupos discutem no vento; Júpiter.

1/8/2008

(o autor)




Busca o padrão para uma narrativa, uma que seja como o aramado de jardim, a gaze invisível que ata um canavial a outro canavial e os olhos turvos fazem pausa na linha do horizonte. «A noção de limite», pensa, eis um bom ponto de partida.
Mas não é ponto de partida. Não há utilidade nele, «os seus frutos têm verme, não serão colhidos» e nesse instante sente cansaço nos sentidos por dentro da potência da imaginação. 
Sob um céu de nuvens, os ventos contrários.
Sob o mesmo céu de nuvens há também um facto, ou sucessão de factos, mas são de outrora, desencadeados a uma luz diversa, por detrás dos quais se ocultam motores que fazem o trabalho de motores, os invasivos, agrestes.
Por momentos acredita que um segredo, talvez a chave de um destino, espera apenas o momento de ser decifrado. Mas o destino de quem? Quem está no balcão?
Quem esteve no balcão?
E na fonte?
Porque houve e há esse lugar de onde a água canta docemente sob a coisa luxuriante, vestidos de um verão, insetos, rãs na relva húmida, risos, a festa.
Vultos desconhecidos, de faces cerradas, prosseguem um propósito inescrutável deslocando-se pelo corredor de uma carruagem do rápido da tarde e avançam cautelosamente, mas sem hesitação, enquanto um manto do tempo se suspende nos campos exteriores, nas nuvens, no cavalo baio trotando na várzea. Que comboio é este?
Acaso uma sobreposição, uma simultaneidade, no anverso do que os sentidos alcançam e contra eles, e a convicção deles, uma espectral, seja a verdade que há. Mas como aceitá-la?
Uma mulher está sentada na manta e o primeiro frio do entardecer decide-a a proteger os braços nus. O comboio trepidante afasta-se para além do horizonte, mas ela, (ou que outro observador?), sabe que não se afasta. Apenas está.

30/7/2008

Aluvião, ênfase





Que disciplina estuda os costumes e o destino da brita? Qual o seu método? Mulheres atravessam a manhã de névoa com relógios de pulso e a pérola, a íris. Defrontam uma dardejante alcateia? Que nome tem o primeiro incêndio de Oriente nas paredes espelhadas? Aluvião? Ênfase?

22/7/2008

Cisma de faroleiros



No fim da tarde levanta-se um vento que entusiasma as bandeiras e uma rapariga caminha entre os nacionalismos das bandeiras trazendo animal de pelo pela trela. A esse bicho denominam desemprego juvenil, mas ela cozinha com caril. Gostaria de levar a justiça pela trela, mas leva caril, gostaria, mas os faroleiros são inquietantes na sua cisma. 

10/7/2008

Teologia em turismo



A deusa segredou-lhe conselhos paradoxais atrás da orelha direita. Assim se fez senhor de uma vontade forte, o fumegante delírio. Insistia que os pombos voavam onde voavam e que as cigarras não provêm de crisálidas dos arquitetos cantores. Estes factos obrigam a questionar os propósitos teológicos do turismo de massas.

10/7/2008

(bestiário paradoxal) 22




Também as formigas?

9/7/2008

(máquinas perfeitas) 37





A Porta da Justiça – Era uma vez um homem que defrontou nas profundezas um peixe ctónico, tendo refletido longamente sobre os encontros inesperados. A mulher desse homem dava por um nome estranho, não havendo consenso entre os vizinhos sobre a sua origem, sendo certo que qualquer problema da origem gera a melancolia inextinguível

9/7/2008.




Duende





Estavas atento ao murmúrio enquanto o bando vociferava. Não percebi de imediato a arte com que os detinhas, como se rasgavam as carnes querendo morder na ironia. Comecei por temer, filho. Agora não temo, Duende.

9/7/2008

(a estrangeira) 31





Sei da porta fechada no anverso de Bellatrix, fui também esmagada no caule por todas as crónicas, que são a mesma, repetidas em murmúrio para além do vómito. Quase ousei pensar a flor do fogo, mas não o fiz. Cedo, o látego deste lado dos mundos desenhou do horror a cerca e interrogo-me se a aniquilação foi escolha, se uma compulsão que a beleza exige. Mas qual? Nenhum eco da dor das vítimas, do seu ódio, desse medo, nada.

8/7/2008

No chapéu





Vozes na noite exterior como pêndulos, guizos no chapéu da insónia porque queria desfazer um ato de outrora.

8/7/2008