A tempestade, as dobradiças





A tempestade vem de unicórnio e faz ranger as dobradiças. Salve sonhadores! 

11/9/2009

(albatroz poeirento) 23





Na plataforma continental, pensa albatroz (agradado da expressão). E repete em pensamento: «na plataforma continental dois demónios antagónicos escolheram a mesma noite para me torturarem». O espírito de albatroz enovela-se, endurece, mas de súbito vêm em seu socorro os salões de jogo da Veneza oitocentista. A eles só acedia quem usasse máscara, ao menos um nariz postiço e, mesmo nas noites em que a multidão se acotovelava, o silêncio era de regra.

9/9/2009

(a estrangeira) 49





A floresta pirotécnica visita-me na máquina, nas asas, na alma, floresta de fulgurantes equinodermes, velozes e doentes de Fúria. Durou um nada, nada durou o engano em Capella, e desfez-se o pânico tão súbito, porque uma música atravessou o lagar do arquiteto, distribuiu pão, curou doentes, vestiu os velhos, os nus, e a voadora toalha é de Afrodite Anadiómena erguendo-se na luz da manhã, erguendo toda a luz e manhã.

4/9/2009

Argolas de argonauta





Atravessei a paisagem da manhã fazendo cálculos. Uma artilharia tomava posição na embocadura do grande rio com nuvens na margem. Nas covas das munições arrumo as breves faces dos passantes, dos viajantes com máscaras, dos turistas holandeses com alicates nos olhos. Sabei categóricos, sabei que agora que não sou o mesmo, agora o canavial dobra-se como serpente a um vento de África e, enquanto tomo as notas meticulosas, faço tilintar as argolas de argonauta.

3/9/2009

Maquinaria






No novo dia há uma velha casa e no primeiro compartimento à esquerda, logo no princípio do longo corredor, um grupo de música de câmara toca com entusiasmo. Entreabro brevemente a porta e espreito, sem me deixar observar. Vejo o piano. Depois empurro a porta, fechando-a completamente e afasto-me para a saída ao fundo. Vou alegre. Vim alegre enquanto o piano se afastava. Atravesso a porta para um jardim interior com fonte (lago, peixes) e uma esplanada em que a mulher exibe uma complexa maquinaria junto da região pré púbica. Observo-a com uma insistência que talvez a incomode e por essa razão (a reflexão íntima) ela quer e pode ignorar-me. A impúdica não só me ignora, mas beija na boca os que, como ela, são tão jovens. Vejo como o piano.

1/9/2009

Caminho para o fundo







A menina de vontade prodigiosa olhou em volta e tomou as decisões práticas. Subiu para a cadeira encostada à janela e movimentando habilmente o corpo esgueirou-se para o exterior, lançando-se em voo sobre o pátio. Observo-a, o corpo sofreu uma redução extraordinária, mais parece de libelinha sobre os detritos. É uma libelinha. Afasto-me da janela porque o gato gordo quer seguir atrás da menina e revela impaciência. Sobe pela cadeira, atravessa ágil a janela estreita, lança-se no abismo (não se trata de um abismo). Também o seu corpo se reduz a quase nada, isto é, a pequeno inseto deslizante. Só então, grãos de areia que fazem o dia inteiro seguiram o seu caminho para o fundo.

1/9/2009

Os amáveis





A toalha da manhã estava posta sobre vales e os bens do município, uma branca, bordada a prata e algodão. Disse-lhes que tudo estava certo, a sede, as desvanecidas lágrimas, o belo caminho descendente, rodeando a colina de que se pode observar, desde este lugar, uma pequena parte. Eles sorriem, suspeito que conhecem algo que ignoro, ou estão apenas atentos a uma repetição, aguardam-na sem surpresa, mais uma e, enquanto me preparo para sair, corrigem alguns dos meus gestos, acenam um não, os amáveis.

28/8/2009

Vento





Um vento pouco convicto varre folhas secas do próximo outono.

20/8/2009