Nas lâmpadas



























Nos nervos, no heléboro, nas lâmpadas futuras, ó futuro!

15/10/2008

Galo da aurora





Trazia um guerreiro no lume das retinas, um galo da aurora. Deus sabe como esses seres são imprevisíveis com o seu fervor indómito. Bom augúrio? Era uma jovem mulher, muito bela, de um sonho fugido do Chile, ou de estrela do sul. A glória?

14/10/2008

Nas mãos




Nos dedos da mão direita tem uma tarântula, a infecta. Também pela esquerda alastra o medo.

13/10/2008

Desdém pela engenharia





Desde esse dia, ou melhor, desde o horror da campânula associada a essa estação, sabe que lhe está vedado um dos corações das máquinas. Pela mesma razão começou a sentir pela engenharia um desdém, um mínimo. Oculta-o dos lagos observáveis, mas sabe que existe, teme que possa expandir-se como a respiração das lamas, mas não quer resistir-lhe.

10/10/2008

Cintilação breve





A tarde sonolenta prosseguiria o seu curso de tarde sonolenta e algum tempo depois haveria de converter-se em sedimento, um depósito ténue no grande armazém das tardes, não fora o insólito apetrecho da barca veloz, deslizando pelo canal. Os meus olhos acompanham-na, observam a plataforma excedente da amurada, rasando a superfície líquida. Num momento posterior ocorreu algo que torna compreensível a finalidade da coisa, ou conjeturo que o possa fazer, mas nesse momento já a minha atenção se dispersara e pergunto-me porque me desinteressei de compreender o uso e nexo daquela invenção humana. De facto não me pergunto nada e tenho consciência de que recorro a um apetrecho retórico. Não me perguntei nada, reconheço ainda. A multidão de estranhos passeava lentamente no passadiço construído sobre águas trémulas e eu repousava sentado nas grandes tábuas, indiferente à presença dos outros como se fosse invisível, estrangeiro, alheio como se fosse outro, ou de outros. Compreendi então que nessas tardes as mulheres tomam as iniciativas mais esplêndidas, abrem o corpo, pegam-te no sexo como se fosse um fruto, ajeitam as coxas ágeis, recolhem-te e ocupam-se de ti como se fosses mais do que cintilação breve sobre o oceano. 

9/10/2008

(o autor)





Observa uma intrusão no ato da leitura e os seus reflexos na inteligência tentam suster-se, decifrar o fluxo das águas numa foz. O dia foi sombrio. O dia foi sombrio? A montanha ergue-se a um sol feliz, aí estão as moradias, os arruamentos diversos dispondo-se pela encosta e pelas suas florestas. Que montanha se ergueu? Este, o objeto da sua inquirição; por causa dele interrompe e de certa forma repele o mundo resguardado no livro aberto sobre os joelhos. Claro que pode dirigir a sua atenção para a atenção que o livro exige, pode deter-se longamente, pode voltar a ele, agora ou mais tarde. É o que faz, ou melhor, é o que fará e, quando isso acontecer (aconteceu já), não esconde de si a perplexidade de não reconhecer as palavras evocadoras, a febre delas. Por outro lado, a montanha virada a sul, com o povoado pacífico e a reverberação sob a luz, oculta, na sua evidência observável, um facto no tempo. «Porque se fez enigma?» pensa que pergunta a si próprio. Mas pergunta de facto? Não apenas a montanha, mas também o vale vasto, de contornos indeterminados, estendendo-se na frente dela, fecham-se a toda a decifração, resistem-lhe com a luminosidade porosa e benévola. Aconteceu algo ou acontecerá o quê? (Seguem-se reflexões sobre a não coincidência entre as perguntas do autor e as do leitor, etc)

6/10/2008

(máquinas perfeitas) 41





Os velhos sonhos – Na noite de ventos, contra o duro tráfego, não há fim para o lamento mudo.

2/10/2008



Metamorfose




Na caixa atravessada por silenciosas correntes do fundo.
Quem poderá identificar os que deslizam com seu centro mudo com as antenas?
Vagueiam e apagam-se, tinham a ferida, a sutura.
No sol de fora as máquinas têm metamorfose em categorias lógicas. 
No vento de oeste. Há a vara?
Na caixa, um zumbido. O que coze as pálpebras não é legível.
Acredita que não é legível, mas depois acredita no contrário.
E não.

2/10/2008