O desdém




Trouxe pela mão os submersos. Falava, atirava gemas a um vento, observava as marés, os muros que vão ruir. Forçou-os a respirar no ar furtivo, no centro, no tumulto. Ela era desdém, o grande desdém pelas «dificuldades atuais».

14/4/2008

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Luz e não saber.

14/4/2008

Entreato





O açude que há sob os choupos na cidade imerecida, tal um entreato, redoma segura por mãos frágeis na pálida luz entrevista, assim correm os animais fugitivos sobre feno na aurora. Palinódia.

10/4/2008

(bestiário paradoxal) 14




Um burro que era cavalo e um cavalo que era burro.

9/4/2008

As contas






Sentou-se sobre um erro que não era erro e lembram-lhe que tem contas a pagar. Como se ensinassem algo. Os alheados. Sonâmbulos de Riso Vago.

9/4/2008

(Máquinas Perfeitas) 33






Gema de vento – Para além de dois ramos nus, no branco das nuvens baixas, no íntimo desse véu sobre telhados, sobre os esboços, aves marcam um traço do que virá, do que não, bordado e combustão no ato estranho.

8/4/2008

(a estrangeira) 25





Num incêndio de mil sóis fiz-me oculta, exalando perfume, na embriaguez de flora por campos que perdeis de vista. Que bifurcações têm origem neste centro, que vento aqui começa, que tempestade, a futura? Entre as Plêiades sou perdida e é em vão que gritais um nome, manejando as máquinas, artefactos, planos mais que perfeitos. Na Tarde grande sou quem o desejo é, fogo húmido, muito mais que Celaeno, e limpo a ferida.

8/4/2008

Na outra seda





Um rasgão, não na carne, na outra seda, na do tempo, não anáfora.

8/4/2008

(o autor)



No interior de uma vasto edifício gelado e sombrio. 
Penumbra suja nos corredores, por vezes interrompida por uma luz branca, débil, que provém das janelas. A hora é do fim do dia.
Sei que trata de um tribunal, do labirinto.
Uma mulher conduz um homem para o interior de um dos salões, entraram ambos, a pesada porta fecha-se. Observo no corredor sob a cinza vítrea e pressinto que ela vai tomar a decisão de libertar o prisioneiro. Sou tomado por uma sensação de escândalo por saber tal decisão iníqua. O prisioneiro é culpado. A sua culpa não merece dúvida, aliás ele não a oculta. 
O meu corpo sofre uma metamorfose do escândalo para o alarme e para a necessidade de agir. Abro a porta intempestivamente, interpelo: «O que vai fazer?», ao mesmo tempo que agito os braços em protesto. 
Durante esses instantes posso observar no relance que o prisioneiro mostra um riso escarninho.
Volto rapidamente as costas, corro pelo corredor fora, vivo uma forte sensação de pânico e sei por súbita clareza do espírito que ela se chama Judite. Mas quem?
No instante seguinte estou na grande praça exterior do edifício. À volta há a cidade de luzes no início da noite, com a mancha última do crepúsculo. Aproximam-se transeuntes, expectantes, vejo-os aproximarem-se sem pressa, ocupam a orla da praça fronteira ao edifício, tendo a cidade pelas costas. Desloco-me na sua direção, misturo-me com eles, enquanto o pânico se desvanece. 
Algo vai ocorrer, que repõe a justiça, que sara a ferida e, num certo momento, percebo que esse acontecimento já ocorreu como movimento, como deslocação dos figurantes, mas na névoa entre sono e vigília o espírito trabalha com a palavra decapitação e a sensação de escândalo torna-se novamente muito viva.

a) No nó do mito antigo, ou antes, no que o espírito teceu do mito, Judite tem razão. Ou melhor, a decapitação, que lhe foi confiada e em que foi arma e ato, depois de pesada na balança, mereceu (parecia merecer) aprovação.Trata-se de outra Judite, dirão. É de facto outra, ou melhor, é de facto a mesma, viúva de beleza e da beleza, refugiada do testemunho na cidade antiga. Na fuga para dentro do mito ela fez-se máscara, conforme à imagem que dele menti, mas agora que veio de visita não a reconheço. Ou sei que algo não quer reconhecê-la, alarmado, dizendo-me senão a fuga. 

b) Se busquei a noite de muita luz e a convoquei, e os transeuntes do crepúsculo findo, o favor de estranhos, foi para que nesta versão haja um Holofernes justo? Um que repudie o abuso para que seja Judite quem ofende o prumo?

c) Uma interpretação vulgar do mito defende que nele se condena o descontrolo do desejo masculino, o excesso destrutivo, que gera morte na fonte da fonte, mas esta interpretação é falsa, ou quase falsa. Fiz-me a convicção de que a bela viúva não quis proteger a cidade do inimigo, que a sitiava e ameaçava com ruína, mas sim de algo maior. O desejo por Holofernes, eis o que Judite decapita, porque o perigo, o mortal, era do seu desejo que provinha.

d) A Judite que não reconheci é de uma era diferente e com ela se opera uma metamorfose do mito. Ela não fere Holofernes pela lâmina, mas divide-o, convida. Por essa forma pratica uma decapitação tão ambivalente como a antiga, mas não o sabe. Ou sabe ainda?

3/4/2008

O perigo de queda























Dois belos seres fizeram as perguntas que lhes competia fazer e eu respondi-lhes. Na aparência, tratava-se de «pôr alguma ordem» ou de «permitir que as coisas serenassem». Certo número de projetos domésticos, banais, repetitivos, oculta por vezes riscos consideráveis. Como se os anunciassem manobras na berma dum precipício, aquele mais teatral, furibundo, «mesmo a pique». As máquinas têm limitações óbvias, creio ter sido essa a tónica das minhas explicações. É claro que têm. Mas não descansei enquanto não reavaliei os riscos. Afinal o perigo de queda era de uns cinquenta centímetros, pobres degraus sob a lua oculta e, mesmo esse, evitável. Bastava observar o caminho das traseiras. Fui observá-lo.

28/3/2008

(o autor)

















Talvez tenha chegado o momento de tentar compreender o que aconteceu «antes», de entender o que preencheu «aqueles instantes». Ou esta verificação exprime apenas o desejo de que tenha havido uma sucessão no tempo e de que ela é inteligível?
Por outro lado, se há esse desejo, ou se há apenas esse desejo, é também justo reconhecer que o seu aparecimento ocorreu quando cessou o impulso de fuga, que «de facto» houve.
Porque tinha havido e haveria um movimento sem freio para o exterior do edifício sombrio, a corrida pelos corredores, gritos atirados ao crepúsculo da grande praça sob lâmpadas, sob as árvores escuras.
Transeuntes! Estranhos! Sereis as minhas testemunhas no passado da fuga e do alarme, enquanto no salão interior faz negócio uma fratura.
Na trave.
No limbo.
Acaso chegou o momento de saber do homem amarrado à coisa teatral, a coisa condenada no interior da luz porosa que está no interior do espaço entre o espaço e entre o espaço. E da mulher com a metamorfose de chumbo. Quem é? Na luz porosa, como chamar à que mais tarde se chamou num passado a alusiva?
Portanto havia a luz porosa e uma metamorfose, e medo, e o momento de tentar compreender.

26/3/2008