(albatroz poeirento) 17





Nos melhores momentos albatroz não sabe nada. Pensa num navio.

12/5/2008

(albatroz poeirento) 16

























«Com estes paramentos pinto os meus amanhãs», eis a frase de albatroz. Mais tarde perceberá que foi mais um plano estúpido, algum tempo depois. Mas perceberá?

12/5/2008

(Máquinas Perfeitas) 35




Pardal do telhado – Na sombra minúscula, no eco inquieto, um dos túneis do espaço-tempo tem seu início. Se houvesse observador capaz de deslindar a malha de todos os voos, a seriedade dos mundos seria o nome de capricho com peso.

12/5/2008 

Cruzamento de caminhos





Nem todos os cruzamentos de caminhos são cruzamentos de caminhos. Haverá uma forma de tornar compreensível o paradoxo? E para quê? Recebo palavras que são o horizonte de um lugar de outrora, são elas o pó de uma deslocação por velha estrada de um verão, são elas os figurantes desconhecidos, os familiares figurantes que permanecem desconhecidos. Quem são? Se viessem de visita, poderiam iluminar o que se oculta nas lagunas.
Um carro veloz cruzou sem nenhuma hesitação o cruzamento que não era cruzamento dos caminhos e o pó desenrolou-se na estrada sob um céu de rasgões escuros. Quem sois? Sois quem observa?
Aqui, no interior do compartimento mal iluminado, rodeamos o corpo sobre a mesa e trocamos palavras de vulgar trato humano, quotidiano, vagaroso. Observais que, quando um corpo se torna coisa, ele sofre a metamorfose em cinzeiro. Sacudo cinza para a reentrância do pescoço que está no arco da clavícula do imóvel corpo findo sobre a mesa.
Uma voz murmurou algo, esboçou protesto, um vago. Quem sois?
Com os braços ergo da mesa o corpo, transporto-o docemente até um leito onde o estendo devagar em decúbito. Então a mulher bela abre, os olhos abre a adormecida soerguendo-se como flor de outrora. 
Há a luz escassa.

10/5/2008

(Máquinas Perfeitas) 34





O alheamento – Coisa na paisagem, coisa que congela a paisagem, argúcia contra os escombros da torre, da torre abolida.

7/5/2008

(a estrangeira) 26





Dizem-me que ouça as ordens nas extensões de Schedir, a vermelha, a gigante e estou atenta, aguardo. Dizem-me que a poeira de ouro esconde um demónio e os olhos semicerram-se, perscrutam o confim com febril melancolia. Nada sei do que move os mundos nem do que está e não está escrito. Ó lumes! Ó leme! Ó écloga! Um sono desejo que segrede os limites, sono do desejo que me guarde do erro e prepare o Dia.

7/5/2008

Desde Roménia áspera





O arco desde a Roménia áspera até um campo de minas. No doce ar primaveril, uma brisa do mar arrasta todas estrelas para o pão de cada dia. Sob comando de uma rapariga em flor ouvem as palavras desconhecidas e desdenham-nas. Percebem uma ordem na noite avara, uma ordem fútil e desdenham-na.

7/5/2008 



(tartaramudo) 31





O ventríloquo julgava saber que pérola traz o juvenil olhar entre dentes. Mas não julgava saber. Apenas colocou hipóteses. Riso? Irrisão? E sobre o quê? Sobre um ninho de cucos?
As vozes, que do passado trespassam o seu ventre, sofrem uma deformação tão poderosa imposta pelo tempo presente, que nenhuma outra coisa são senão o informe.
Não o que foram outrora, não o que outrora ainda são.
O ventríloquo tropeça sempre nessa batalha infinda. Ela fere-o, estilhaça os seus poros, a pele do seu corpo amarrado à faca de agora, a que arde como incêndio e é máscara no medo, na promessa, na aurora, na luz abrupta.

2/5/2008

Ó melancolia! Ó ermo!





O cinza de uma noite confinada, eis o manto que vi. 
No exterior dos pátios, os corpos sangrentos, de mandíbulas que sofreram a deformação extrema. Um gancho de algures suporta-os na ausência de aragem, mas há ainda o estertor, a vontade de agressão que é o seu sopro, avidez de marfim, de dentes.
Uma nuvem ocupa-se das construções, disseminada, poeirenta.
Ó melancolia! Ó ermo!
Sob os telhados, que suportam todo o peso da sombra e o esvaído coração da treva, uma lança do vento e da luz há, um vestido de flor, a esquiva argúcia e oculta-se.

28/4/2008

(bestiário paradoxal) 16














Gato que não se diz persa prefere comodidade a todos os derrames sentimentais. Gato que se desdiz também.

23/4/2008 

Espelho partido





Homem que tem espada enferrujada dentro de uma assembleia constituinte saiu de dentro do espelho. Com uma bengala o partiu, mas o espelho já partido era.

23/4/2008 

(albatroz poeirento) 15















Caçado pelos seus sonhos, albatroz elabora longos considerandos. Denomina-os as Vestes com que se atravessa um ermo e quer saber de costura, de corte e leme, de costureiros, de tesouras sagazes, das comodidades futuras. O futuro, sim, eis um tema de albatroz.

21/4/2008

Num cesto do corpo





Algures num cesto, lá onde o corpo se ressente da chaga, na coisa que tem um uso incompreensível. Sob um céu mudável a mulher idosa falava para a plataforma de onde me ausentara, as palavras jorrando como corrente veloz, em fuga. Quando partiu, por decisão tomada de súbito, abandonou algo que não trouxera consigo, fazendo de mim seu herdeiro.

21/4/2008