Fábula






Antiga pena de escritor desenhando o alto. Na tarde dissolve-se com a extremidade de drago ou ave, oh!





29/3/2011

(acontecimentos raros) e







Sobre o balcão do restaurante típico, um recipiente com as favas denominadas imperativos categóricos. Sentado a um canto, Kant observa-as e come lentilhas.

28/2/2011

A decisão







No início da noite tomo a decisão de subir a colina que esteve atrás, sei que devo dirigir-me para a mansão iluminada. Porque chamo mansão ao casarão que espera? Um casarão espera? Aproximo-me, vou para o interior pela porta entreaberta, e nesse mesmo momento as luzes apagam-se. Não se apagam nesse momento as luzes, mas estão apagadas desde quando? Na escuridão, atravesso corredores e os pátios, sei das estrelas findas sobre a balaustrada, uma mulher convida-me amavelmente a subir ao último piso, mas devo dizer não. O que acontecera antes denomina-se imperativo categórico. Recusar o gasto público supérfluo, afastar-me tomado pela ira ao longo da plataforma costeira. É o princípio da noite, e os desconhecidos dos automóveis não param de circular como uma ameaça circula. Tomo então a decisão.

28/2/2011 



Sem pressa







Lépidóptero sem pressa, visitante da noite de monges.

25/2/2011

Autor, máquina







Autor com máquina de alargar sapatos.

25/2/2011



O cartógrafo renegado
Máquina




Campos submersos






A viagem ao confim tem justificações vulgares, mas naqueles instantes não sabia de nenhuma. O que fazia de cicerone deu explicações sobre a ponte destruída e sobre o caminho que prosseguia pela beira-rio. Haviam espalhado brita há pouco, desenhando a estrada para o automóvel, observei num relance. Depois, os meus olhos voaram sobre o rio, a distante margem, pedras brancas, areia, as plantas espinhosas, segundo dizem. Rio estranho, mas a sensação ocultei-a com um comentário quase anódino, e o condutor foi silencioso.
A viagem prosseguiu à pousada na orla da floresta. 
Esperava-me uma refeição da noite, debaixo das estrelas e da brisa, e tu aguardavas-me nos belos corredores, iluminados pela luz bruxuleante, e tu eras a familiaridade. Mas quem és tu?
Noite, as plumas, quem és tu?
Uma aurora com pássaros cantando e luz de vinho derramado a oriente contemplam o rio silencioso que inundou margens. Também eu venho ao vosso chamamento, corro, o alarme dá-me lança e pendão, observo o automóvel submerso, água límpida desliza mansamente sobre o conceito mecânico.
Na manhã, fiz cálculos, tomei notas dos tempos e das medidas, sem pressa, sem propósito. Regressar?

20/2/2011

História







Heródoto é o grego nascido em Antioquia. Ou seria.

19/2/2011

Temporal







A ave marinha sonata nº 23 (appassionata) voa nos ventos da costa num dia em que meteorologia anunciou de sudoeste ondas de sete a dez metros.

16/2/2011

A luz de Rhynsburg







A luz de Rhynsburg (mas o que é a luz de Rhynsburg?), um efeito súbito da refração, cintilante, silencioso, cintilante no âmago da lente que o homem segura entre o polegar e o indicador da mão esquerda, com um lento movimento ascendente. Esse, o momento escolhido pelas palavras para se moverem para dentro da folha sobre a mesa como insetos atarefados, formigas mínimas, misteriosas. A maior parte daqueles que escreveram sobre as afeções e a maneira de viver dos homens parecem ter tratado, não de coisas naturais que seguem as leis comuns da natureza, mas de coisas que estão fora da natureza. Mais ainda parecem conceber o homem na Natureza como um império num império. Julgam com efeito que o homem perturba a ordem da natureza mais que a segue, que ele tem sobre os seus atos um poder absoluto e apenas tira de si mesmo a sua determinação. Procuram, portanto, a causa da impotência e da inconstância humana, não na potência comum da natureza, mas não sei em que vícios da natureza humana e, por essa razão, lamentam-na, riem-se dela, desprezam-na, ou, o que acontece mais frequentemente, detestam-na.

Então, um movimento de afastamento dos olhos do observador, um movimento para a retaguarda, distanciando-se por dentro da lente, para trás (para dentro?) e para cá das palavras sobre a folha, para cá da folha sobre a mesa, para cá da mesa num interior (de Rhynsburg?), para cá do homem de mediana estatura, feições regulares, pele cor de azeitona, cabelos pretos e crespos, sobrancelha negra e basta, denunciando a ascendência sefardita, para cá, muito para cá do homem que segura a outra lente. No trajar muito descuidado, a ponto de se confundir com os cidadãos da mais baixa classe (palavras de Colerus?)

Dentro desse movimento, um outro movimento de retração do olhar do homem de mediana estatura, feições regulares, pele cor de azeitona, cabelos pretos e crespos, sobrancelha negra e basta, através da matéria vertiginosa de nova lente segura entre o polegar e o indicador da mão esquerda, sabendo serem da natureza aqueles que escreveram sobre as afeções e a maneira de viver dos homens tratando-as não como coisas naturais que seguem as leis comuns da natureza, mas como coisas que estão fora da natureza. 

Não cessa o movimento de afastamento dos olhos do observador (do autor?), movimento distanciando-se (para dentro?) (para o exterior?), para cá das palavras insetos, da folha sobre a mesa, da mesa num interior holandês, para cá do homem de mediana estatura, feições regulares, pele cor de azeitona, cabelos pretos e crespos, sobrancelha negra e basta, denunciando a ascendência sefardita, para cá, muito para cá do homem no trajar muito descuidado, a ponto de se confundir com os cidadãos da mais baixa classe. 

E haverá outra retração do olhar, para trás (para o íntimo, para fora?), por dentro de terceira lente concebida na mente dum desconhecido (do leitor?), conhecendo o que outrora foi escrito (sob a luz de Rhynsburg?) pelo homem de mediana estatura, feições regulares, pele cor de azeitona, cabelos pretos e crespos, e

13/2/2011

Corveta






A superfície aquosa vai pelo horizonte adiante como um tapete acabado. De lavar. As nuvens do fundo não são observáveis senão como avatar. Navio cansado, verde navio de azeitona avança da direita para a tua esquerda com motores amarrados às camas deles. Os soldados no convés dão grandes gritos e acenam com quépis nos braços, que moinhos são. Velha nave de súbito se ergue como Pigmalião, Vem para cá, vem ofegante sobre uma onda nova.

13/2/2011