(a estrangeira) 36





Na cauda exausta de Unukalhai não espero encontrar o rei, mas aceito a dúvida, sacudo com um lenço as abelhas no voo, guardo livro e a lira. «Eis a balança», dizem vozes dos arcontes, de Apolo vivo, ou dos ventos. Por um crepúsculo de ferro ao rubro o temor cala-me como nave deslizando a ocidente para a evanescência dos mundos. Os meus olhos despedem-se do seu fogo, mas nela é que vou, na máquina trepidante, no uivo, na fúria.

6/11/2008

(O Grande Palmípede) XIX





Na crise financeira, há um motor de olhos vazios, da máscara.
As hipotecas, os pistões convulsivos no centro dum motor átono.
O viajante observa as unhas dos especuladores cravando-se no cabo de aço.
Os barões da finança têm a vã vassoura nas palavras pausadas.
Nas tapeçarias dos olhos dos acionistas, as traças amam paraísos fiscais.
O tumulto com as divisas e o mergulho dos mercados de ações pedalam no espectro dos pedais da bicicleta hiante.
Outro nome das tarântulas é balança de pagamentos.
Um outro é carry trade, ou crepúsculo.
Se fora comprar títulos e outros ativos que rendessem uma taxa mais alta o viajante despenhara-se pelos olhos dos intermediários financeiros com ardor.
No ardor dos intermediários financeiros não há a rapariga felina. 
O fumo das taxas de empréstimo é negro, é viral.
Porque fogem os corvos, voando com a atenção de pregos, o aço, dos mercados monetários globais?
Que são hedje funds? 
Nem pevides?
Nem acrobatas? 
Nem coreógrafos?
O viajante recebeu dos amigos um apelo para se deslocar com urgência à fossa de Mindanau com os braços leves, com manguais da infância, para ajudar a precipitar no abismo o bando das finanças e o bando dos acionistas com as pulgas, e o bando dos adoradores idolatras. O viajante vai.
Há melancolia em todos os despojos, mas o viajante vai.
As contabilidades paralelas dos negócios escuros são parábola duma Odisseia infecta. 
No anverso do ouro deles, uma lâmina rasga-lhes a pele dos ventres, a putrefacta.
Ó fogo!
Vem futuro; as voadoras Eríneas.

5/11/2008

Os fazedores
















Os fazedores de atenção em arco num outono. O horizonte todo, que os olhos abraçam, é o seu domínio. Há ainda a flora, a peste e a summa teológica.

5/11/2008

Lacre desfeito





Na água da fonte pública ensaboavam roupa
E batiam-na uma e outra vez com os braços
Nus sobre lajes de granito
E batiam ainda fazendo rodar sobre a cabeça
Lençóis e as fronhas. Por um instante erguiam a face para um sol
Sobre alpendres e eu observava-as siderado, ferido pelas setas
De poderosas mulheres, dos seus braços, das coxas belas, das pernas
Imersas na água tingida de branco, olhava-as e fugia
Nos olhos pela névoa
Nas colinas ao fundo.
Vi e vi como se desvanecem, como um vento sem origem
E sem alvo rodopia na tarde fria, mordendo corpos e o cansaço, árido
Como o lacre desfeito sobre um segredo de outrora, uivante
No ermo cego. Mas não. Seus gestos continuam
No lugar de sempre, estão e estão onde a roupa lavam, com coxas à luz e
Os lençóis de linho alvo nos olhos que riem pelas setas.

4/11/2008

Carteiros?




Foi-me dito que as figuras angélicas também brincam às casinhas. Ignoro se têm disso consciência enquanto servem de mensageiros (de carteiros?). Foi-me dito que se deitam no chão, atrás das sebes dos jardins, sobre as coxas das raparigas em flor, enquanto a vida e tráfego prosseguem indiferentes. Na realidade foi-me dito mais do que o que me foi dito. Eu mesmo pude observar a dedicação entusiasta dos seres com asas. De certa forma o que me foi dito é redundante.

31/10/2008

Os explorados




«Não existem», diz na noite de pedra, ao volante do automóvel vermelho. Não haveria sábado se existissem, não a conta bancária, não as lâminas congruentes, não o poder, o do ouro. Não haveria o heliotrópio. Quem sabe da razão feroz num desses mundos? Porquê a razão feroz num desses mundos? Não são explorados porque não existem, nunca visíveis num desses mundos.

29/10/2008

O poder?




Num fim de tarde apercebeu-se da lente entre as retinas e os altos muros. O vento é a lente. Quem são os estranhos que deambulam sem amarras? Tenta subir as escadarias pelos olhos deles. Por momentos faz o gesto e desiste. Recomeça nos degraus dos olhos dos transeuntes, nas cordas que os amarram aos altos muros e aos avisos coriáceos dos anúncios. As coisas brilham. Através da lente observa as bandeiras dirigindo o vento para os olhos dos estranhos. Uma epilepsia pelas escadas dos outros agarra-se aos muros de uma rapariga segredando as coisas. Mamas brilham nos anúncios sem amarras contra um velho com poder. Que é o poder?

28/10/2008

Irmão!





Há um tempo de pedra que é o fulgurante não, a súbita reversão do ocaso, rios cantantes, irmão.

27/10/2008