Compostura








A velha senhora tem a Compostura na cabeça com seus ganchos e cabelos domados, os negros cabelos lisos numa manhã de pombos com pontualidade secretária. Fora, os autocarros municipais correm para os pontos cardeais. A velha senhora tem também buço na venta bela e, dos olhos negros dela, espreita o espírito do deus que ri distintamente, não sobre as águas, mas sobre um copo de leite e torradas. 

24/4/2012

Aurora rara







Afirmar que drago, um vegetal, se oculta na árvore rara, não é afirmar que o grupo bovino se concentra no sopé dos alcantis. Contudo, talvez uma coisa seja a outra, ou talvez o anverso de uma seja o verso de outra. Havia um sol para seu pináculo, e a ordem do mundo era o que se pode chamar ordem do mundo com camiões e as mercadorias dos camiões. Foi então, só então, que a súbita luz se derramou sobre as vacas da quinta, as de pelagem castanha, ou branca, ou outra e, sob a cúpula, Aurora rara era visita. 

23/4/2012

A perua








Um vento duro sobre as águas, vento e a luz de sabre dividindo-se nas aves 
De um mar alheio 
E denso 
Observado pelo autómato 
Ou ventríloquo 
E há neste frio incêndio um júbilo com grão e outros comestíveis 
Aproximando o real como sonho 
Sem dever algum 

Depois consulta ventríloquo as anotação sobre 
Estatística, cálculo de probabilidades e 
Recorda 
A raposa de cauda bela 
(Nem bandeira de Occitânia?) 
E o sueco turista de golfe 
Zangado como ave (a perua) 
Com funcionário português confuso. 

12/4/2012

Máquinas Perfeitas








Cálculo de probabilidades – Está velho admirador de aves prestes a estatelar-se em Escatelares? 

12/4/2012 

O Molosso







Também fome comum me levou ao mundo reconstruído, mas o Molosso corrigiu-me, atravessando com súbito gesto a meu olhar o «recriado mundo». Conduzida pelo mais raro dos agentes turísticos, deixei-me cegar pela luz púrpura sobre campos de asfodelos, nos vales de água e fumo, sob estrelas nascentes. Daqui partirei para Halicarnasso, numa das fronteiras onde a espuma se desfaz, mas a esperança não está intacta. 

7/4/2012 

À margem







Há algo de informal no facto de a celebração ocorrer na rua, à margem de uma estrada que tem como destino a floresta, junto de um muro baixo. Aí viemos com as cadeiras de lona e os olhos miram os salgueiros que ocultam o rio. 
São quase desconhecidos, estes que debatem com a demasiada seriedade a Coisa Vaga. Mas são de facto desconhecidos? Uma das faces já a tinha observado num consultório médico com os segredos por detrás da bata branca. Agora recebo das suas mãos as folhas de papel que têm escrito o plano e o agravo. Os outros observam-me com atenção, convictos de que a Presença é uma regra «ou um módulo». 
Uma brisa ociosa desloca a nuvem de pó sobre campos ocres que antecedem o rio. 
Há um avião no alto e o sol da tarde. 
Tenho um dever para com as palavras escritas porque percebo a sua inadequação ao propósito a que se votam. Trata-se de um assunto que tratei tantas vezes outrora, eis porque sinto melancolia, a originada por erro e cansaço. 
Uma decisão cresce dentro dos meus hábitos como legume, apesar do pequeno desconforto. Contemplo-os a prestarem atenção aos meus argumentos, quando defendo que esta formalidade tem nome diferente do que eles lhe atribuem, mas alguns afastaram-se entretanto. Ao fundo há um supermercado. 

5/4/2012

Ideia de lugar








Depois da demorada ascensão, que lugar é este sobre o horizonte e a ideia de horizonte? 

Pergunta viajante. Que lugar é? 

Reflecte-se a luz sobre as águas como no dorso de Animal e reverbera em ouro, em algidez, em pânico, e sopram os ventos com seu alumínio e ônfalo. Que lugar? 

É ilha com seu alógeno? 

Rosna vendaval, rosna contra os enigmas visitados por aves, uiva, fere. 

E recorda um clarão amarelo irrompendo por seu templo e cabeça, e pelas armas todas do corpo com seus cestos, toalhas, centro de mesa, lábios. 
Clarão de incêndio, sufocante de cegueira e lamas quando viu e leu, e viu a frase, a única e mesma, a única sempre repetida, sempre e sempre. 

Que lugar viajante? 

Para que ao fim de cada tarde os hóspedes se refugiem nos tectos protectores, vindos de caminhar pelos sinuosos caminhos, pelas veredas cavadas pelo mar nas plataformas graníticas, pelos precipícios virados a norte, a oeste, às aves das trevas? 

Lugar? 


31/3/2012

Nos olhos da sentada







O movimento da mão leva consigo o movimento dos olhos, mão que agarra a mão da mulher com o seu oiro sobre um âmago como almofada em cabeça.
Os olhos na cabeça acompanhando o movimento da mão que agarra a da mulher numa recusa quase rígida, quase por um frio protegida, quase uma rede, uma armação.
Os na cabeça acompanhando movimento, esses olhos acolhem o súbito vislumbre de si deslocando-se com o movimento do corpo com seus lábios, com sua massa e sensores dobrando-se em direcção ao pescoço da mulher com a irrealidade de seus parênquimas e pântanos.
Mas tomam conta de si suspendendo-se com o corpo e lábios, e a consciência em seus zângãos pensa o movimento interrompido, simultaneamente encarando um pássaro denominado Polémica, que esvoaça com suas asas endócrinas sobre a planície dentro dos olhos da sentada.

30/3/2012