Paragem de autocarros





Um homem que trazia a gabardina debaixo do braço. Na sua mente organiza os estratos da cidade em atividade, cidade de máquinas, de trânsito, de pó. 
«Não. Apenas recebo com os meus sentidos o que se denomina um fluxo, as sensações», cala a sua mente.
Um estranho esteve na proximidade do homem das sensações e ele observou-o com atenção. Pode-se dizer que mediu, que comparou e que refletiu longamente sobre as injúrias do tempo no corpo próprio.
Nas fezes do corpo próprio.
«A este dispositivo chamam paragem de autocarros».
Deste lugar retomam o seu destino os que querem retomar o seu destino. Alguns não o fazem, quedam-se imóveis. Porque haveriam de partir? E para onde partir?
Também o homem da gabardina se decide pela espera, apoiou o corpo numa das paredes de vidro da estrutura quase etérea, da construção precária que oferece segurança, a falsa. Claro que esta cidade assolada pelo pó tem no nome edifícios e os jardins suspensos duma balança que o tempo come sob céu de vitríolo, a leve púrpura, ocultando as fezes.

21/2/2008

(Máquinas Perfeitas) 29





O jarro de flores – Porque a possibilidade de deceção está sempre presente, as flores decepadas são murmúrio e a crueldade antecipada na imaginação.

20/2/2008

Nome de filha





Num prego do ar ela vê escrito um nome de filha, uma que partiu. Tem nos olhos alicate que arranca a coisa do ar. Ela e a coisa esperam o momento de transformar o passado num campo com sentido, seara, lago que reluz, luz sobre lago. Enquanto a garra moral e metálica se faz gesto e objeto, o tempo presente não tem hora, não voo, não lago sob a luz, não Artemis.

19/2/2008

Chá morno




Uma mulher tinha simultaneamente nome de flor e nome de inseto voador.
Dela se pode também dizer que é voadora.
Chegou, partiu e no intervalo houve o chá morno na chávena de faiança (leve perfume do chá).
E à chávena se chama ápice 

13/2/2008

Ângulos





Tinha contemplado as coisas que uma manhã acumula, muros que delimitam sonhos, erva rasteira, a estrada onde uma desordem se instalara. Não teve consciência de que estava atento, mas atento à depredação, ao oco da paisagem, à paisagem, ao rio onde uma fratura, à fealdade que transborda. «É preciso encontrar o responsável», pensou o que soçobra e eu dou-lhe razão porque de certa forma sou responsável, embora não haja o responsável. Mas há outros pontos de vista. Os ângulos.

11/2/2008

(O Grande Palmípede) XV





O viajante chegou a uma estação de tumulto, arrastando botas de viajante pelo terreiro que a multidão fez seu e os desatentos olhos mal percebem o cume de onde a tarde desce, de onde uma luz de fadiga, um céu que não estava ali, montanhas azuis, nuvens de pó que são o caos, o sempre presente, sempre velando.

Um propósito ímpar fizera-se tema de uma preocupação geral, a de todos os desconhecidos observando as formas tubulares de brilho metálico, coisas tão próximas do que se chama vida, segredo, o número. Como denominá-las senão com esse epíteto de coisas, interroga-se o viajante, que nomes têm para elas estes transeuntes, ou desconhecidos, ou ávidos, os confusos?

Portanto, uma decisão fora tomada, de construir os ascensores, aquele próximo bem defronte dos olhos do viajante, pois que outro nome têm?

Daqui se observa a linha do cume, árvores esparsas, terras esventradas pelo esforço humano. Eis o que o homem entre outros homens observa.

Uma decisão fora tomada, mas a inquietação sem bússola voltava ao lugar.

«Que é o lugar, a coisa geográfica?», pergunta o viajante.

Mas não pergunta.

Porque no centro da polémica sem fim (não parece ter fim) os factos padecem de uma vocação, a força, a inevitável. «Os factos que se arrumam por plataformas, por estações em que a regra é o sentido», soa na mente do viajante.

Os factos, a sua sucessão, arrastam certamente consigo algo que se denomina depósito, talvez se nomeie esquecimento, mas esse movimento não é irreversível e pode suster-se diante dos jardins que agora estão na frente do viajante, pequenos lagos submetidos á necessidade de serem belos.

Com uma pequena rotação do seu corpo, o viajante coloca-se na posição de poder observar o segundo ascensor. Uma luz laranja reflete-se na coisa que tem algo de intocado, perfeita para lá de máquina perfeita.

Na sua frente um amigo de outrora diz as palavras para este instante e nas palavras para este instante está a mulher de um ónibus do passado, presente mas oculta e nas palavras para aquele instante está a alegria jovem como um potro.

Ó viajante! Ó vidraças que uma luz magoa! Ó edifício para esta estação, para este tempo de ascensores!

Ao fim de cada tarde, vê viajante, os hóspedes refugiam-se sob os tetos com a tristeza, sulcos de lágrimas. Vieram de peregrinar pelos sinuosos caminhos, pelas veredas, pelos caminhos virados a Oeste, a Norte. 

9/2/2008

(a estrangeira) 22





Fui perdida ou a renascida na harpa de Orfeu? Fui quem a águia trespassou no voo inatacável, no movimento puro? E dizem, e murmuram «a que se fez cinza, a que ardeu e é fecunda», mas as suas palavras são nada. Deles, os sábios, os Atlantes, os passarinheiros, os Dióscuros, os de Heliopolis aguardando o quê de Alpha Lyrae? E porque me invejam no instante do novo Norte? Porque apenas sou a que sou? Quem?

6/2/2008