Palácio LIX






Como se o centro de gravidade da rua asfaltada.
Como se sofrera uma deslocação pendular.
Mas que quer dizer a coisa pendular no centro de gravidade?
Isso significa nada.
Deveras a arquitetura quer dançar como lençol lívido.
«Ah! Os lençóis lívidos!» 
O riso de Teresa, a sua voz no céu de inverno, no horizonte sobre o estuário, na coisa ocultada por detrás da montanha.
E os desconhecidos avançando com silêncio e os sonhos até à vedação metálica em que o guardião tem seus ossos e botões.
E árvores com a solidão firme, semáforos.
Ruas estreitas do antigo centro.
Gatos como deuses distantes, esquivos.
Cinética cidade pêndulo.
Bentes, Teresa.

2/12/2009

(bestiário paradoxal) 34




Corvos, lâmpada, portas.

25/11/2009



Azeitonas?







Está a trabalhar com a memória. Sentara-se a uma folha de papel e dessa plataforma ouve o espanhol gritar Puta Madre. Mas gritou de facto? Ou são azeitonas caindo da árvore batida por um vento? Levantou-se, aproximou-se da janela, as mãos do vento acenam-lhe com mágoa, vira as costas em silêncio e pega numa maçã com a cor do vinho. Senta-se de novo, observa o estrangeiro a esbracejar como uma lâmpada. Uma lâmpada?

20/11/2009

Navio graneleiro





Observei tetos baixos sob a luz e os seus acrósticos, vi o que ocultava a respiração das montanhas, nuvens, latadas sobre o vinho, aves na tarde monótona com olmos. No passado, um navio graneleiro foi metáfora do mundo, e os marinheiros de continente extremo sabiam do segredo. Quatro anos haveria desde o corrupto trema, quatro anos. Um carro alegre, um em segunda mão, fugiu a duzentos quilómetros pelo amor oculto, mas foi vã a fuga. Antecipou-se a morte, a demente antecipou-se.

15/11/2009

JL






O fauno que viu Lenine a fazer piruetas está a observar um retrato de JL.

11/11/2009


O Cartógrafo Renegado
















Metamorfose






O motor de belas cores resistiu a todos os esforços de obter o Êxito Mecânico, apesar de não me ter poupado o trabalho dos braços e dos músculos. Observo que uma parte dele se transformou na flor de papel, ou talvez em moinho (de um papel translúcido).

9/11/2009

Tromboflebite






O trânsito. O risco do trânsito sempre presente, mas como ameaça espectral, longínqua. Por fim dois faróis surgem de uma esquina da noite e são o oráculo, a Tromboflebite. Não tenho dificuldade em aceitar que o recurso às moedas no lugar das bolas de golfe oculta mal um símbolo óbvio (demasiado óbvio, com suas caras e coroas). Mas que dizer dos desolados desertos na noite e do pó nos desolados desertos da noite? Disciplina?

9/11/2009

(a estrangeira) 50





Levanto-me da cadeira de balanço, segredam-me um impulso desde o universo gotejante, abre-se a porta para os meus passos, atravesso o jardim sob o nevão, vou para os campos de uma monotonia alva, a floresta, a via-férrea, corvos grasnando no rasto de mim na radiação de Lesath, máquinas destruídas, a vidraça por onde a espreito sentada na cadeira de balanço, e levanta-se, e tem a echarpe púrpura, e para onde sob o nevão?

6/11/2009