Derrocada nas tubas




Nos armazéns a que chamam mundo entre colchões e as colcheias de Cólquida. Um chicote do fim da tarde golpeia os que caminham numa direção e depois noutra. Este sol é o olho do deus que cegou no grande Pó. Alguns aclamam os aclamados. Alguns estão doentes. Uma derrocada sopra nas tubas do ocaso. Sangrenta?

1/7/2008

No banquete





Um homem e uma mulher estão sentados a uma mesa de banquete. Houve uma hora silenciosa, sob as estrelas, em que soube quem eram, de onde provinham e para que horizonte se dirigiam. Uma luz intensa fez soltarem-se as cores de todos os objetos, pratos, travessas de comida, os grandes jarros, a toalha alva, a parede de fundo, de onde os murmúrios como numa estufa. Há uma sucessão de factos, uma anterior, que converge para a hora iluminada, mas dissipou-se numa sombra de poço. Estou quase lá (estive quase?) e desconheço, ignoro, uma cegueira interpõe-se, não dos sentidos, mas exterior às retinas, (ou interior?). Quem são?

30/6/2008
O Cartógrafo Renegado
(A uma mesa)


(bestiário paradoxal) 21





Sentou-se a defecar com a concentração (a solenidade?) de leão

27/6/2008

(bestiário paradoxal) 20




Musica nas esferas, alegre conversa das rãs no lago noturno, caem as bolsas.

27/6/2008

(a estrangeira) 30




Neste vórtice abre-se a biblioteca dos mundos, no pórtico que me está vedado. Porquê? Por que razão é interdito? Atendo uma voz que escolheu a fealdade, ela disforme, a inábil e repete proibições no Paço de Eta Bootis, uma voz de anã branca, e oculta. Nesta espera ganho as minhas feridas, rasga-me na carne a fatal lança, grito funda execração contra a termodinâmica, as leis, a dor. Sei que, quando vencida, venço. Ó Ventre, ó Luz! 

25/6/2008

Das Erínias





O que vem das Erínias não é compreensível.
(O que vem das Erínias não é já compreensível?)
(O que vem das Erínias não é ainda compreensível?)

25/6/2008

As palavras




Numa cidade do norte, num inverno escuro, ouviu de um murmúrio soprado na névoa que era Teseu. Comunicou suas determinações ao pai amado, que desejava poupá-lo a um campo de sangue, explicando: «Não há destino, mas o meu destino é outro». Ao repetir as palavras, acredita que as mãos jovens detinham outrora fio e chave para o mundo de fora. Num plaino de Angola o estilhaço perfurou-lhe a rótula. Muito mais tarde explicaram-lhe em surdina que os papéis ardem. Não a pensão que lhe foi negada, mas palavras de execração são o seu labirinto, as infindáveis. 

24/6/2008

(albatroz poeirento) 19






«Foi-me dado compreender», diz albatroz de si próprio. Esse é um bom momento para observá-lo, se verdadeiramente isso importa.

18/6/2008

Atractor





Diz que viu um deus na tarde turva, ou que foi visto pelos olhos imóveis desse atractor, do que semelha o vento magnífico. Está preparado para as demoras, para as aves negras, a turfa, o resultado incerto. Mas está? Pelo alto pinheiro a seta conspícua, a fatal, a súbita, vai e foi, e vai nos ilusórios estratos atmosféricos, no tempo uno. São as asas de Hermes? Esse zumbido simultaneamente cruel e compassivo? Diz sim. As miraculadas vértebras. Sim.

18/6/2008

O tumulto, as cerejas





Na potência topográfica há um proscénio, diz o olhar. 
A sonolência oculta. 
Um fragor mecânico de indústria está ou estará num espaço cavo a que se chama passado, a que se chama futuro. Nos ladrilhos, no pó de carvão, nas figuras humanas migrando com retinas em fogo. 
Para ver cavalos, ver o tumulto.
Também cerejas.

17/6/2008