Hotel embargado






Observei o vento nas bandeiras, verso e anverso dum desperdício.
Na paisagem, que é contradição, observei.
O automóvel avançava penosamente no caminho florestal, a máquina deixava uma cauda de pó e subia com ruído para um destino que só ela sabe. 
Esta era uma imagem recorrente de tantos ocasos
Sempre e sempre observei o esforçado motor defrontando o caminho na montanha alta, sob as árvores e vento.
Sempre no planalto de penedos negros, amarrados na sua surdez, suportando todo o passado do automóvel que vai a um promontório.
Ao abandono, na que é contradição, observei a construção embargada, hotel que nunca será, os pilares esventrados pelo inverno, tijolos quebrados no futuro, batidos pela chuva fria, o minuciosa choro da terra, entardecer, o púrpura.
Observei os lagos, espelhos.
Agora o Delegado de Saúde também observa.

29/7/2010



Ourives








Começarei por falar do momento em que quis fazer o elogio do passado, as manhãs, fulgor e névoa sobre os campos a perder de vista, mas então, no instante, os meus olhos viajaram para as montanhas de arenito, o árido tecido, arbustos raros, nem a perdiz, mas luz, demência.
Interrompi o meu propósito porque era um vexame.
Os olhos baixaram aos pés da mulher na minha frente. Ela aguardou. Levantei a cabeça, vi em frente, contemplei uma face sombria, olhos resguardados na gruta, no hemisfério, no onagro invisível. «Venho e venho», disse-lhe, e disse as palavras de um mundo, meta bissulfito, os rebanhos perdidos do entardecer, os duros músculos cavando a fossa de setentrião, pedras jogadas na noite, seixos.
«Venho a um perdão» dissera-lhe antes, depois de subir as escadas de pedra, depois de bater com os nós dos dedos na porta pintada de verde. 
Fora necessário apaziguar um homem novo, correndo no pátio com a navalha. Necessário olhá-lo como à lebre jovem. 
Os céus escureciam, uma paz instalara-se na cadeira de verga. Cumpria os ritos pelo agravo que houvera, mas continuava a nada entender.
Como ourives em plena decepção.

20/7/2010




O Herbário






Atravesso uma paisagem do ensino secundário como cavaleiro sobre campo de couves. Estou desatento de tanto verde, e uma descrença vai comigo. Armários com os lepidópteros, volumes de cartolina, cadernos manuscritos com manchas de tinta, tudo observam os olhos cansados. Ao fim, defrontam um pátio sob o sol, pátio que esteve mas já não está. A educação sexual? Olham-me sem compreender, reticentes, sentam-se no chão de areão, murmuram: «Távola Redonda».

12/7/2010

Indiferença







Pergunto-me que nome dar a estas ruínas, mas não são ruínas. Na frente, um templo, a coisa romana, um quase intacto sob os céus claros, diz o espírito na menina dos olhos, e avanço sobre as lajes de mármore rosado, e uma luz de crepúsculo ilumina a tua figura de pé, imóvel, recortada contra as colunas do fundo. Quero chamar a tua atenção para a reverberação sobre a planície, com o braço direito aponto a seara madura, mas sobretudo quero que observes a colina ao fundo, as árvores altas, o acontecimento cujos ovos estão a ser chocados. Estás imóvel e alheia ao meu chamamento (indiferença que perturba). Afasto-me correndo, desço o caminho poeirento pela curva larga que abre o horizonte da planície, aí onde a mulher idosa. Que vai ela fazer nos seus passos trémulos, porque caminha sobre o restolho? O que é indiferença?

8/7/2010



Era da água






Abri o armário e observei que a água jorrava com intensidade, uma chuva contínua esgueirando-se entre os fatos e a roupa nos cabides, uma água tépida, fumegante, que ali tinha a morada e atributo, a sua era. Uma era da água. Nesse momento tocaram à campainha. Hesitei por instantes, imóvel na entrada do armário, mas decidi-me a abrir a porta da rua. Duas mulheres olharam-me ignorando o facto de que estava nu (de que nesse momento tomei consciência), seguiram-me sem uma palavra e afastaram-se depois para o destino ignorado. Voltaria a abrir o armário, água tépida, etc. Mais tarde, um tempo depois, vejo um casal de jovens no jardim interior (claraboia, os canteiros, caminhos de areia grossa) que se desloca na cerimónia de perseguição e jogo. «Sei que são os ritos», penso. A mulher sentada sob o caramanchão, a uma mesa de ferro forjado, faz comentário breve, impaciente. Os jovens têm umas máquinas semoventes.

5/7/2010

A severidade da recusa






Vi-os descendo antigo caminho de terra branca, arenosa, entre os muros de pedras soltas. Não se aproximaram em grupo, mas antes um após outro com as caras roídas de uma era sacrificial. Tinham olhos como gemas riscadas em órbitas de sombra e batiam à porta de uma pequena construção destinada a um uso temporário, mas que eu sabia, paradoxalmente, ter sido antigo cómodo, primeiramente um barracão aldeão e depois garagem de automóvel. Batiam à porta, e um desconhecido comunicava-lhes algo pela frincha, em surdina, que era um não de casa de penhores (a severidade da recusa). Davam meia volta, afastavam-se silenciosos. Hoje pergunto-me qual o lugar de onde observava os jovens alemães; sei que não era do sótão da casa fronteira, destinada aos contratados do outono, com seus cânticos e energia. Suspeito que o corpo que os viu estava simultaneamente dentro e fora do tempo deles, e dos seus pés descalços, das velhas calças no fio, evanescente como a ave que desenhou um risco no ar, rasurado pelo crepúsculo.

25/6/2010



Vento






O vento é adaga na maré enchente; as súbitas aves, futilidade de parcas.

15/6/2010