Vale com museu







Tratou-se de uma actividade incongruente. Mas como ter a certeza? Aconchegar o motor com almofadas, eis a minha tarefa na manhã de manhãs. Caí depois na goela do sono, vi olivais, campos terraplanados, a Mulher Bela com as pálpebras feridas em roxo, em ambrosia. Há um vasto Vale no Norte com museu e severidade, e uma cosmogonia para pastores de renas. Mas como ter a certeza? 

24/1/2012

(máquinas perfeitas) 56






Cobertor de papa – Guardam segredos na penumbra os arrozais grotescos de Entardecer.

18/1/2012

Sobre a demente






Velho Urinador sobre terra lusa e a demente oligarquia.

18/1/2012

(Tartamudo) 41







O ventríloquo vê-se a si próprio no acto de observar amigos entregues ao jogo da árvore. Ascendem por uma corda, balançam depois na barcarola de verga. Há algo conspícuo, há ainda a imagem em contra luz, mas sobretudo incompreensão.

Um tempo ou cortina é depois.

Na penumbra doente avança, nas estreitas ruas antigas decrépitas da cidade morta como ovo goro vai, na penumbra da cidade de cinza.

O salão branco e degraus, o mensageiro de outrora com sua farda e distopia. Ele sofre. 

Em outro salão com as cadeiras, as tapeçarias, os sofás, a mesa imóvel e debaixo de luz quase viva aproxima-se da varanda observando plátanos. Tem o seio nu da mulher na mão direita e há Inação, e ela repete «halogéneo», e dobra-se sorrindo como se não houvesse nem dádiva nem merecimento.

15/1/2012



(a estrangeira) 51







Mordi os lábios quando fui defronte ao incêndio, ao âmbar. Teremos um dia olhos para ver e Ver? A esta demência, à fúria como zelo, chamam de Lambda Velorum os augures. Antífona? Quadrante? E repetem que são imponentes os motores de Apolo. Mas, se no vento sou só, não haverá certezas sobre o reflexo deles, ou sombra, ou estrépito, nem sobre o poder do deus execrado pela estrela doida. Foge anã. Esquece.

11/1/2012

Perigoso Artefacto






Deste lugar que se chama sótão, ou que um dia se nomeará coisa chamada sótão, deste lugar observo pedreiro no seu labor. Mas mal o observo, pois os andaimes e os grandes recipientes com areia ou cimento, e as tábuas, que atravancam todo o espaço à minha volta, tornam-no impróprio para campo de visão. Por ora, o telhado, que haverá, é a Abstração desenhada por um sol. Tento decifrar as palavras proferidas pelo homem, mas a dúvida subiu a meu lado pela escada em caracol com os degraus destruídos do último lance. Perigoso Artefacto. É um estrangeiro? Tem a deficiência na fala que reverbera como um vento dentro da luz? Finalmente julgo ter compreendido que as obras estarão findas no prazo de um mês, embora a informação não chegue a ser tranquilizadora.
No lugar chamado sótão, ou que um dia assim se chamará.
A trepidação causada pelo tráfego de cidade grande foi razão suficiente para o desmoronamento de uma das paredes do edifício. Tinha-o observado como se fosse outro, deslocando-me no automóvel pela avenida dos vindouros, tinha-o observado desde Alheamento, como se fosse de outro, mas sempre e sempre fora ele a minha habitação.

8/1/2012



?








Ataraxia?

7/1/2012



(O Grande Palmípede) XXXVIII







A tinta que precede sua Queda, de folhas de plátano.
Ferruginosa, a rosa pálido contra um céu de cinza. És a testemunha viajante, a mais próxima, e a verdadeira natureza da testemunha e sua proximidade são a instância primordial.
A salvo dos olhares humanos alguma coisa acontecerá?
Diante do Portal da Gafaria na Av. Manuel Maria Portela n.º 19, em Setúbal, constituído por duas ombreiras e por um lintel com cinco arcos. O arco central ostenta um escudo. Na parte superior, a expressão latina: - Vanitas vanitatum et omnia vanitas.
No Livro exposto com sua promessa e imprecação de um deus Átono.
No voo da ave mínima, Provável como sonho.
Na mansão vestida de Decadência, à entrada do bairro com Casaco cinza, onde o anúncio de apartamentos para venda.
Desconhecido pasmado com cão.
Viajantes de Leste.
Acontecerá? O quê?

1/1/2012