(máquinas perfeitas) 52






Fila Indiana – Rapariga de saia vermelha, coração em filigrana; homem com as cores do clube desportivo nas costas, enfisema; mulher de mamas grandes pensa na hipófise da vizinha; a invisível morta vizinha; miúdo com bola e sede; homem velho leva coelho no saco; bombeiro responsável faz a aposta semanal; observador na luz lilás.

28/3/2010

A verdade menos






A distância é furtiva entre rochedo e nuvens, entre parede e as mulheres avançando como mariposas sobre as lajes inexistentes. Distância no bordado que tu és avançando para os dormentes pássaros na manhã, o rio íntimo pelo lado de fora. Gato percorre muro e o espaço anterior ao muro como se sempre ali estivera, como se a repetição fosse hoje e depois, ontem e sempre na corrente que há, oca, amarrando faróis à trémula dança das giestas. Mas não, não há, mas não haverá na distância menos que verdadeira, mas não a verdade menos que ondulante.

21/3/2010

Região montanhosa 3






Na montanha há, num recesso oculto entre fragas, a profunda mina afundando-se na terra. Quem se aventurar por ela, como eu me aventurei, saberá que descreve uma trajetória retilínea, descendente, conduzindo à câmara na treva. Aí chegado, a busca paciente dos objetos que foram arrumados nos recantos cavados no barro, e também o recurso a uma paciente disciplina, quase um ritual, permitirão ao visitante iluminar o local. Paredes castanhas, argila, o teto à mão, uma abóbada precária, húmida. A bruxuleante luz pode extinguir-se com quase nada. E extingue-se. Mas aproxima-se a criança, e o à vontade com que percorre o local, errando sem cerimónia, é a paz dada.

15/3/2010

Região montanhosa 2








Na região montanhosa, numa vertente árida do lugar sempre desconhecido, observo um grupo de alpinistas exercitando-se no cume. O esforço deles não me parece sério, creio tratar-se de um simulacro, e na lentidão teatral dos seus gestos penso observar jogo, irrisão. Quando se afastarem, e eles prosseguem um caminho que os há-de perder a meus olhos, procurarei repetir o seu esforço. Quem são? Um tempo depois, desloco-me ao cume pedregoso, verifico que obstáculo é, mas não.

15/3/2010





Região montanhosa 1






A região montanhosa acolhe os seus visitantes como se sempre os conhecera. A região montanhosa acolhe os visitantes, etc. Na estação outonal, sob nuvens que aparentam ter aqui a sua morada, de cinza, de fuligem evanescente, a cidade pequena a meia encosta marcou-me encontro com a velha amiga. Ela foi meu cicerone até à mobília, ao lugar da mobília, e foi com espanto que a ouvi proferir opiniões convictas sobre os materiais ou sobre a conspiração inquietante a que chamamos beleza. Nessa tarde confiou-me que o marido insistira em reservar a dormida no luxuoso hotel e eu recebi a notícia sem surpresa, mas também, simultaneamente, sem ocultar de mim próprio o quase despeito.

15/3/2010

Das nuvens






Zoomorfos na atmosfera sobre os montes da Arrábida

12/3/2010



O Cartógrafo Renegado
















Zoomorfo 1
















Zoomorfo 2

(O Grande Palmípede) XXVI






Na tarde fria, no vento que abria caminho à luz como uma adaga abre.
No cais para onde voavam as nuvens de púrpura, as nuvens feridas.
Pela adaga feridas.
No cais expondo a cara ao vento, exibindo-a.
O viajante pensou «porque a exibe? Porque mostra os olhos com medo? O que esconde?»
Observou que se deslocava de um lado para outro, perscrutava o caminho que ali o conduzira, um alarme tomava-lhe o corpo.
Como um motor tomava-lhe o corpo.
Como um pano rasgado pelo vento, tomava-o.
«Ele espera na tarde finda um inimigo», pensa o viajante.
«Teme e sente aproximar-se o inescrutável inimigo, que interromperá a sua infâmia, mas como o reconhecerá?»
«Como saber quem iludiu nas várzeas inundadas, oculto no junco?»
«Como saber nos palheiros em ruínas que ocupou por uma noite, desviando-se de povoados ermos?»
Eucaliptais.
Inverno.
Distante norte.

7/3/2010







(O Grande Palmípede) XXV






Sobre os canaviais e sobre os campos entre canaviais, uma chuva fria vem batida pelo vento do mar. O olhar do viajante demora-se no cavalo. Está imóvel o cavalo sob a chuva com a cabeça soerguida, está com o vento cruel pela ilharga. 
O viajante pensa no cavalo como um príncipe de beleza.
Um na meteorologia como asa ou a lâmina de estoico.
O viajante pensa seguidamente no seu olhar de viajante atribuindo ao cavalo sob o vento e chuva a demasiada coisa duma alfaiataria humana. O viajante é com o pensamento nos canaviais e nos campos entre canaviais debaixo do vento do lado do mar.
Um simulacro imóvel é o cavalo que ele viu que viu.

7/3/2010

O alto






Polímeros, opala, oriente.

24/2/2010

Margem






Inflorescência, a loba, a urze, na saída da estação fluvial.

24/2/2010

(máquinas perfeitas) 51







Trebisonda – Segundo o censo de 2000 eram duzentos e catorze mil novecentos e quarenta e nove os seus habitantes.

14/2/2010




Tempestade





Tempestade tâmara brava Holofernes

14/2/2010

Alfinete





No coração (?) da chuva um alfinete de mármore.

14/2/2010