Trazia um motor no corpo. Para um observador exterior esse facto era uma evidência, mas não é certo que ele estivesse consciente do entusiasmo mecânico que lhe movia as articulações. Pelas autoestradas da Europa aquela conformidade tinha sido uma vantagem nas horas extremas. Penso em manhãs de luz sangrenta cintilando sobre os campos geados, penso nas vastas planícies e também nas noites, na chuva.
Mais tarde, uma incompreensível forma de cansaço desceu como um crepúsculo sobre as bielas, as manivelas, a câmara de combustão. Começou a falar de justiça.
Na realidade, o que buscava era a outra metáfora.

13/4/2005

Ramos nus a entrarem para dentro do azul são arabescos do labirinto.
Também a língua destes transeuntes, destes desconhecidos junto a um mar, com barcaças lógicas de ferro e decrepitude. Um vento sopra.
Chama-se Mabiala.
No Uíge era chamado de Mabiala pela mulher que tinha uma cinza no olhar e assim é chamado por sombras que na noite o visitam. Umas aves brancas atravessam-se nas leis da língua, facas puríssimas e esses movimentos de vertigem retiram consistência aos edifícios e às avenidas dos edifícios. Roubaram-lhe o pouco salário como se ele vivesse do voo dessas aves brancas, do risco fosforescente desses pássaros invadindo o íntimo de uma noite em que persiste o mal, o incompreensível.

8/3/2005

Ainda trago a dúvida comigo, como um telegrama de outrora, como cartão de visita. Foi no sétimo, no nono andar? Que significação atribuir a esta duvida? Pode-se observá-la como marca de água, como nó na tábua do sobrado?
O elevador cómodo, espaçoso, veloz, adequado a uma época de animais domésticos.
Observei que estavam abertas as portas de vidro da varanda. O pequeno asno ergueu-se nas patas traseiras e debruçou-se com as anteriores sobre um varão de ferro que protegia do precipício.
Mas protegia mal.
Na luz rosada do poente o corpo desastrado saltara com alegria, com impaciência. Quando aproximámos o olhar do vasto terreno coberto de areão nenhum de nós esperava a boa notícia. Eu pensava na sua improbabilidade e assim as duas mulheres.
Havia o refúgio a que se chama indiferença.
O corpo cambaleante tardou em recuperar o equilíbrio, sacudiu-se, sacudiu-se de novo na luz rosada do poente, deu alguns passos, iniciou a marcha, interrompeu-a, retomou-a, correndo, correndo com a mão de Deus por baixo.

4/3/2005

No vale arborizado, próximo de antigo domínio com sinais da longa sucessão de trabalhos e sedimentos, muros ocres, estátuas nuas a um vento, no vale com choupos e a luz do ocaso, há a fábrica de paredes pintadas de verde. Esta evidência da fábrica pintada de verde entre a vegetação parecia mais do que suficiente para a rede de todos os sentidos.
«Mas uma nuvem atravessou os céus», eis o que dirão.
Não. Nenhuma nuvem se atravessou nos céus. Nem é possível conhecer porque os céus se fizeram outros, céus de uma cidade que tem nome prodigioso, mas que não está viva, não está viva. O desconhecido que observo a caminhar pelas ruas de grandes edifícios decrépitos é-me absolutamente familiar. «Um desconhecido familiar», penso com estranheza, entre os edifícios que a luz branca e benevolente parece proteger.
A luz, que parece proteger, protege de facto.
Talvez o desconhecido familiar, que entretanto se afastou por grandes arruamentos de um século cheio de história, torreões, colunas dóricas sob o céu de absoluto cinza e se afastou de um passado de fadiga e obscuridade, talvez esse passante conheça a secreta passagem da fábrica de paredes verdes para a cidade de nome prodigioso. Um nome como Moscóvia.

23/2/2005

Uma transformação realizada sobre a coisa cadente, sobre a vagarosa descida na prata do estuário, gerará a ilusão de que tinha havido uma mariposa e de que esta viera sufocada de melancolia.
Nada mais falso.
A aeronave trazia os faróis, dois, inutilmente acesos na luz do dia.
Pousou como folha morta sobre as águas de um passado com palavras quase esquecidas, as águas glaucas, mas de facto submergiu para que um desastre de aviação se fizesse real. Nas instalações portuárias, à esquerda do observador, uma azáfama sob guindastes apressou-se com o navio salva-vidas.
Trazido à superfície com rapidez surpreendente, o avião ficou de bojo aberto expondo as mercadorias. Era um aparelho de pequenas dimensões, acabado de chegar de uma das ilhas e nenhum dos dois homens da tripulação sofrera ferimentos.
Caminham pelo cais exibindo as máscaras, as desconhecidas.

21/2/2005
À hora em que a noite caía e a luz era a colcha azul, o véu lúcido. Eu prosseguia por um caminho de pé posto na traseira das moradias, na fronteira com o campo de choupos, forragem depois, animais a olharem com uma serenidade fatal. Durante um tempo, o dique do corpo esforçou-se por conter as emoções. Por fim aceitou uma trégua, que era também uma conclusão.
«Tão insuficiente a proteção dos consumidores!» .
Não há defesa contra as balanças mal aferidas nem contra a urgência das operações comerciais em balcões inacabados, nenhuma defesa contra a lassidão de empregados de olhar turvo, comunicando entre eles com o código desconhecido. Eu trazia na memória a sensação de um erro óbvio de pesagem, um erro de tal modo grosseiro que impedia toda a possibilidade de reação, pois qualquer pessoa diria a si própria que não podia ser «levado a sério».
Prosseguiam por um caminho estes pensamentos.
Mas não por muito tempo. Algo os desalojava do antigo carreiro junto dos muros.
Os olhos deambulavam para um horizonte em que a noite se fazia cúmplice, choupos abstratos de um inverno, aves de uma ferida de outrora. Os olhos deambulavam, mas não por muito tempo e quando voltavam com as suas asas, um sobressalto sustinha-os no voo.
«Porque são outras as mercadorias adquiridas?»
«Quem se obstina contra o direito dos consumidores?»
Estas perguntas vieram para dentro do espírito ao verificar que algo se mudara nas coisas compradas, mas algo que as tornava inteiramente satisfatórias para o fim a que se destinavam, percebendo que a surpresa da descoberta era acompanhada de outra forma de deceção

17/2/2005
O Cartografo Renegado

Homem buscando o quê?

O deslumbramento com as técnicas de interrogatório podia conduzir-nos a um impasse, a uma rede, ao poder de enigma da âncora obscura. Foi o pressentimento desse risco que determinou a pausa.
Todos a desejavam, tornou-se depois claro, o inquisidor, o inquirido, as testemunhas todas, os transeuntes, mesmo os desatentos.
Há um fator de incerteza nas técnicas, até nas mais experimentadas, mas por fim deveremos confiar nelas. Esta regra obteve nova confirmação quando se percebeu que o inquisidor devia a vida à intervenção do outro. Senão a vida, pelo menos uma forma de desatenção a que também se chama crepúsculo.
A ameaça surgiu de um agressor com fato de bom corte. Puxou da faca. Quem podia prever que os acontecimentos enveredassem por esse rumo inesperado?
Felizmente que o inquirido era técnico de artes marciais.

27/1/2005