(bestiário paradoxal) 22





Insetos convulsivos conspiram a derrocada do mundo financeiro. Mas não ofegantes.

16/9/2008

Um céu?





Um céu tecido por parcas enfarinhadas.

16/9/2008

Alegria





Alegria no coração do deus ventoso, porque a pequena lebre prodigiosa.

12/9/2008

(máquinas perfeitas) 39





As avenidas – Belos frutos verdes nas laranjeiras de setembro e o bosão de Higgs.

10/9/2008

(O Grande Palmípede) XVIII





1 - O viajante toma consciência de si num impasse e esse momento detém-no (ou nesse momento detém-se?). Na estação de origem, de onde partiu há um pouco de tempo, habitação, o domicílio reconhecido nos inventários que têm por fito designá-los, esqueceu uma coisa útil, o objeto que deve reaver.

Depois de um momento de pausa, muito breve, inicia a deslocação em direção ao artefacto no passado, caminha por uma alameda de plátanos com a imaginação presa nos arames da atmosfera, nas fitas esvoaçantes e abandona-se às decisões do corpo, dos tendões, músculos, da sagacidade do corpo sobre o pó do caminho, sobre folhas mortas.

Os olhos são agora advertidos de que foi cometido um erro, a pequena praça defronte não a reconhece o viajante, confinado pelos pobres edifícios, sem saída, coberta de areão branco. Por um tempo hesita sobre que ação tomar e debruça-se sobre um muro que delimita a estrada de um vale fundo, de murmúrios, de vegetação densa e húmida. Uma rapariga com as suas aves no cabelo aproxima-se sob luz de prata e ela dá-lhe as explicações que estão certas no ar, que ocupam o seu lugar como um lenço útil.

As casas do bairro suburbano são iguais a tantas. Jardins minúsculos sucedem-se a estabelecimentos com os signos de decrepitude, tapumes, antigas residências desconformes decoradas com as manias de proprietários que desapareceram e cuja alma era um arabesco de ferro forjado. O viajante não a descobre, à casa que por um tempo desconhecido foi sua, algo a oculta como um espinho expectante, denso. De opróbrio? Da alegria nua?

O afastamento do viajante no ocaso turvo, na noite tomada por um vento de tinta.

Árvores e as montanhas áridas.


2 - Os seus sentidos de viajante aceitam com surpresa a transformação da povoação litoral, dispõe-se a reconhecê-la com coração convicto. Sabe que neste local a avenida que há é a avenida que havia, estendendo-se em curva ampla na meia encosta, mas os olhos são agarrados pela proliferação urbana nas colinas sobre o mar. Desde o alto dos montes até à linha da costa, as casas estão arrumadas em socalcos ordenados por um dom de caos ou algo outro de que se ignora nome e o fito. Sons metálicos repercutem sobre a fúria urbanística e acrescentam frenesim ao possante coração do trânsito, à multidão, à energia soltando-se da cidade contra um mar de desdém. Os sentidos do viajante suportam esse embate, estão seguros de poder defrontá-lo, mas esta é uma certeza sem traves sólidas, rapidamente erodida quando o excesso de realidade se converte na própria realidade. Que praça é esta que não é a que havia nem a que devia haver? Porque têm pressa os transeuntes? As perguntas são como zângãos perdidos nos jardins e o viajante desiste da ilusão da vontade consciente, aceita que os seus atos sejam decididos no corpo antes de toda a lâmpada.

Vira as costas ao tumulto da praça e prossegue no sentido contrário ao que aqui o trouxe, pelo mesmo passeio em obras, uma pressa toma-o, avançando pela brisa intacta.

O armazém de portões amarelos está aberto para o viajante, está à sua espera, talvez se possa dizê-lo e no interior de sombra fuliginosa, nas prateleiras metálicas, nos barrotes de madeira deixados ao abandono contra as paredes de tijolo, nas antigas máquinas cobertas de pó e óleo, ele sente o cérebro expandir-se como metáfora e aviso. Como jato nascido do seu centro, fulguração explodindo no vazio, o viajante recebe e descrê as palavras que deslizam de luzes cadentes, de folhas mortas em direção a um ocaso. A sombra que as proferiu, aceitando um destino que as renegava, que as desvirtuava apesar delas, apesar da sua beleza, ou da ilusão de beleza no seu pessimismo extremo, aquela sombra dissolve-se no recanto mais árido do espaço inteiro do armazém. Exatamente desse lugar salta o assaltante empunhando a pistola, um homem envergando o gorro que lhe tapa as feições e que grita pelas chaves do carro, e o empurra, e lhe ordena que se agache com as mãos na nuca, de frente para a parede.


3 - Na manhã, o viajante não consegue esconder de si próprio o sentimento da deceção provocada pela fotografia da povoação litoral, que o jornal diário expõe na primeira página. Talvez as fotografias mintam, mas as fotografias não mentem. A sensação de frenética vida urbana a que a sua experiência pessoal parecia dar razão é desmentida pela observação da imagem a que dedica uns momentos da manhã. Os jardins estão no seu sítio de jardins, os telhados iluminados pelo sol demoram-se inexplicavelmente na sua espera, as colinas são menores, mais íntimas do que a memória que tem delas. O próprio mar, ou melhor, o pedaço de mar observável, parece ter desistido da inquietude e do alarme. 


4 - Há o crescimento da tempestade, o crescimento nos muros da noite dos ventos que silvam, das pancadas de água com os invisíveis arames no vidro dianteiro do automóvel. O viajante sabe que uma decisão tinha que ser tomada, ou soube-o depois de ter dado meia volta, desistindo do propósito de chegar à Cidade Iluminada.

Quem foi arquiteto das construções abandonadas na sombra do crepúsculo?

A circunstância de observá-las do interior do automóvel torna-se a dado momento no objeto de reflexão. 

10/9/2008

Plano de futuro























Lançou um olhar distraído às folhas das árvores conhecidas e desconhecidas, arrastando a perna deformada por um engenho de guerra. Na avenida em obras deve haver um plano de futuro. A empresa que lhe deve as horas extraordinárias também tem um plano de futuro.

9/9/2008

Nas varandas






















Nas noites, contemplava a lua enquanto o marido ciumento vigiava hábitos menos circunspectos. Desistiu de explicar-lhe que o coração do levante se veste dos dias findos e não há regra, compasso algum, para as varandas que espreitam uma ilha lívida, a grande armada, a telha vã. Uma depressão de agosto. Nem um vinho.

8/9/2008

(a estrangeira) 32








«Coisas de ar», disseram os que têm o arpão e as palavras cravaram-se como pregos de aço sobre Aldhafera, de cabelos belos. O corpo não crê nesse Não, o corpo descrê do véu cujo motor trabalha o lago íntimo dos vales todos, dos desfiladeiros ásperos, da uva, dos loendros. Máquinas e a luz são o seu poder, superfícies espelhadas no que outrora se denominava ocaso, na fome, no ato de vontade, na viajem recomeçada, no sono. 

3/9/2008

?



























Nada, ninguém, lua alguma?

3/9/2008

De cor





O coração do deus ventoso não está a fibrilar.

1/9/2008