(máquinas perfeitas) 49






Fogo-de-santelmo – O desconhecido aguarda no silêncio dos arbustos a pirotecnia sobre os seios perfumados, noturna, e aguarda um sândalo voador, e as aves, os alegres pássaros que a manhã inventará.

19/6/2009

(bestiário paradoxal) 32






Na crisálida oculta-se a criação do novo mundo de baba, ranho, mandrágora.

17/6/2009

Murmura a deusa






A coisa de uma era ficou ao abandono encostada no muro de velhas pedras. Retorna a buscá-la, faz o esforço com os membros, com os olhos fitos no passado da perda, pode ser útil, vai. Mas não. Sob um céu com cortina de nuvens altas, o relógio de dentro, máquina de densidade quase infinita, decidiu de outro modo. «E agora é tarde», murmura a deusa de cartolina ao ouvido direito, «continua com as tuas razões pelo ermo, faz contas». Então observo as searas rasas, terra vermelha, maciços pedregosos na paisagem apócrifa, a voraz. Telefona, filho.

15/6/2009

(a estrangeira) 45






Sinto-me perdida, gritei aos mascarados na grande várzea, fiz-me de histrião, rasguei vestes sob a chuva de ouro, sob os filamentos que cresciam na grande Água desfazendo-se depois, em mínimas explosões súbitas. Acolheram-me, dançaram (como leões marinhos?) em meu redor, banhados pelo fósforo de Al Niyat, a voluptuosa luz. O que há de farsa na farsa? E porquê no coração do Escorpião como heróis vencidos?

9/6/2009

Ordem contra a apostasia





A poderosa noite é um legume habitado por máquinas domando motores em tumulto, óleo, sargaço evanescente na cabeça dos empreiteiros e as doenças deles com mulheres de gordas nádegas. Uma chuva veio e foi sobre a encosta esventrada, e abriu as portas da manhã com a névoa, como estilete sobre árvores jovens. Cão sob a chuva, no caminho de pé posto, avança, hesitou. Há motores no restolho, motores com febre por edificações no sólido, na pedra, nos muros altos da albergaria e da torre de água, da torre de ordem contra a apostasia. Sei a que são os armários no interior da penumbra e a que foram. Esforço-me a aceitar a refeição desigual, porque uma razão há e houve, e há para tal disparidade com bife, enquanto observo a mulher comendo com a concentração de fêmea jovem, a mulher do armário com nádegas e as mamas de veios azuis. No armário para gestos ternos, na penumbra dentro.

8/6/2009

Pássaro no ombro






Há montanhas azuis na profundidade do campo e a luz do astro vem sobre os artífices desta província. Não queres conhecê-los, queres que a sua sombra e as máquinas que utilizam, e os animais de trabalho que vão na sua vida, se convertam numa espessura indiferente, quase abstrata. Fosse este o cenário com montanhas e a diagonal da luz sobre montanhas. Borboleta do vento desfaz-se. Automóvel na velocidade. Homem com pássaro no ombro, sentado numa velha cadeira de jardim, acompanhado por gatos convenientes, homem em pose na cabeça do autor, no alheamento do autor, arquitectando um futuro que não é. Surpresa, reflexão sobre o significado das catástrofes, atrito, inércia

3/6/2009



(O Grande Palmípede) XXI





O viajante sabe que a plataforma na sua frente é um quadrado perfeito. Sabe sob os céus iluminados por um incêndio em todas as direções do horizonte.

Fumo amarelo sobre o quadrado, dissipando os seus contornos, anulando-os de facto, fumo que desfaz e refaz continuamente os limites da coisa sob céus móveis.

Muros de adobe, vigas metálicas para uma indústria rara, que se atravessam no sentido do vento sobre a plataforma, secções de construções urbanas destinadas a escritórios e apartamentos, em cujas paredes espelhadas se reflete uma luz dura, coisas que alteram as suas formas, que as expandem e as retraem no motor do olhar, na pulsação do tempo do olhar.

O quadrado na frente do viajante é quadrado no exterior do viajante, mas que vai no íntimo, na sua treva iluminada pelo horizonte dos incêndios

Uma mudança conforme com a potência do fumo faz-se provável como lua.

O viajante encostado à mota potente, objeto que imobilizou no átrio vasto, sobre um braço de metal retráctil, aguarda que o amigo com a notícia se aproxime.

Ele vem na sua direção, caminha sem pressa.

As palavras que lhe dirige já não são compreensíveis e o viajante sente as tesouras, que são o tempo nos propósitos do amigo de antes, a fazerem o seu trabalho de tesouras na penumbra pelo interior do átrio vasto.

Grupos de desconhecidos, mulheres jovens, homens no seu fumo de outrem, dirigem-se á grande porta do fundo, prosseguem a marcha pela direita num corredor deles para o entusiasmo da Assembleia.

Mota imóvel no átrio, céu escuro agora no exterior do edifício e a Assembleia dentro.

Sob as nuvens de fumo negro desses incêndios um outro negrume se adensava, da tristeza da mulher, na época aberta a uma aridez e a um som repercutindo até ao horizonte. Os olhos tinham regredido nesses dias ao deserto de onde a água se afastara com as flores belas, mas por fim devia esperar-se que uma luz invisível viesse abrir um novo campo entre as ruínas, nas quais insetos preguiçosos evoluíssem, objetos de uma crueldade de jogo. A única lança de luz, a única fulgurante e lúcida na palidez do olhar, é a que persiste das vestes fugitivas do deus que ri distintamente, nunca se deixando contemplar na face talvez demasiado bela, talvez assustadora, dessas vestes evanescentes que uma e outra vez procurava agarrar arremessando-se com o corpo de ardor e armas, porque mesmo as sucessivas derrotas abriam os portões de um horizonte mais vasto, de um oceano sem limite nas faces de todos os desconhecidos, dos transeuntes cansados, das mulheres belas, da criança no canavial. Este impulso de combate dos sentidos, com o seu poder insuficiente, tinha simultaneamente dado causa a uma forma de depredação, sentida como desordem, que incluía a melancolia dentro de um jogo de espelhos, o puro equívoco.

28/5/2009