(bestiário paradoxal) 16














Gato que não se diz persa prefere comodidade a todos os derrames sentimentais. Gato que se desdiz também.

23/4/2008 

Espelho partido





Homem que tem espada enferrujada dentro de uma assembleia constituinte saiu de dentro do espelho. Com uma bengala o partiu, mas o espelho já partido era.

23/4/2008 

(albatroz poeirento) 15















Caçado pelos seus sonhos, albatroz elabora longos considerandos. Denomina-os as Vestes com que se atravessa um ermo e quer saber de costura, de corte e leme, de costureiros, de tesouras sagazes, das comodidades futuras. O futuro, sim, eis um tema de albatroz.

21/4/2008

Num cesto do corpo





Algures num cesto, lá onde o corpo se ressente da chaga, na coisa que tem um uso incompreensível. Sob um céu mudável a mulher idosa falava para a plataforma de onde me ausentara, as palavras jorrando como corrente veloz, em fuga. Quando partiu, por decisão tomada de súbito, abandonou algo que não trouxera consigo, fazendo de mim seu herdeiro.

21/4/2008

(bestiário paradoxal) 15



Primatas de afinidades experimentadas trocam conselhos prenhes de segundas intenções.

18/4/2008

Nos braços ventosos





Vi-os nos braços de uma primavera ventosa. Homem exasperado e a mulher muito bela experimentando os limites da sua força; jovem que sofreu a fractura confiando no poder curativo da meteorologia incerta; idosa de asilo ansiando por café; um que prezava a delicadeza discreta.

18/4/2008

Pérola entre dentes





Agora julgo saber que pérola traz o juvenil olhar entre dentes. Riso? Irrisão? Sobre um ninho de cucos.

17/4/2008



Cabelos de amarelo




Uma doméstica madura assistiu longamente a uma farsa de tumultos. Viu que a atriz novíssima trazia o arquiteto por uma trela de rímel, de perfume e da arte de representar o que o homem de cabelo branco mal imaginava no labirinto das maquetas. Depois de observar com olhos de testemunha separou o trigo do joio e enamorou-se dum jovem frágil com cabelos pintados de amarelo.

16/4/2008

(Máquinas Perfeitas) 34





Ábaco de sonhos – Porta aberta na linha do horizonte, a não visível, a que será e não, a que.

14/4/2008

O desdém




Trouxe pela mão os submersos. Falava, atirava gemas a um vento, observava as marés, os muros que vão ruir. Forçou-os a respirar no ar furtivo, no centro, no tumulto. Ela era desdém, o grande desdém pelas «dificuldades atuais».

14/4/2008

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Luz e não saber.

14/4/2008

Entreato





O açude que há sob os choupos na cidade imerecida, tal um entreato, redoma segura por mãos frágeis na pálida luz entrevista, assim correm os animais fugitivos sobre feno na aurora. Palinódia.

10/4/2008