Palácio LXIII








Na manhã imóvel com bandeiras imóveis, na branca manhã de névoa branca imóvel, na trespassada manhã de árvores expectantes como livros nunca lidos, a mulher é ferida pela lança de alarme, a do ar rarefeito nos edifícios ao longe, congelados, hirtos.
Antónia grita para que a atenção desça.
Para que a atenção pela escadaria do passado se suspenda e se preserve sobre o abismo. Nas tâmaras, no apelo do sul pelas rotas por Equador.
Porque avança navio com seus motores para um Moçambique de outrora.
O casal tomara suas deliberações numa fria noite de conluios e uma viajem de propósito agora incompreensível foi organizada na estação em que laranjas amadurecem. Nas praças desertas amadurecem, na pequena cidade de província com as doenças dos idosos e cães ladrando nas noites, e com guarda-noturno em farda puída. Na praça que a multidão enchia nos dias de mercado, tendo-se deslocado num amanhecer de gritos, de chicotes, em carroças puxadas por mulas de pele trémula ou por asnos, os sóbrios asnos.
Como, nos longínquos campos, terá ocorrido a tragédia?
Sob que árvores desconhecidas, de nome desconhecido, em savanas longínquas?
Porque a sombria ceifeira interrompeu com sua gadanha a vida do casal na força da idade, o homem e a mulher fazendo seus cálculos enquanto os olhos se demoravam nos rios, nas preguiçosas nuvens, na gente adoradora de seus mortos.
Antónia demora-se na noite do passado, desatenta do sopro que agora agita as bandeiras. Demora-se na noite como alta porta, a maciça coisa ocupando os céus reais, o horizonte de luz e treva por inteiro, coisa separando os tempos com seus gonzos, cerrada sobre o tempo passado onde os olhos do homem e da mulher se desfazem no pó, se desfazem em pó. A coisa abrindo-se para o tempo futuro, na aurora lívida, e então os mecânicos iniciam o dia de trabalho na oficina de automóveis, trocam as primeiras palavras empunhando a chave-inglesa, amam a prensa hidráulica.
Antónia vê a alta porta com êmbolos.
Vê a noite alta sobre as duas raparigas órfãs tomando deliberações quanto a empresa.
A alta porta é a coisa no passado sobre abismo.
E os ruídos da oficina.

20/11/2011

(máquinas perfeitas) 55
































Rimas – A hesitação entre Tucídides e Adalberto decide-se com o não de Dagoberto?

16/11/2011

(máquinas perfeitas) 54






























Rimas – Sabão da sonhada roldana na savana do limão.

16/11/2011



(tartaramudo) 39







Os olhos corriam livremente pelo jardim extenso, correndo atrás dos cães, que corriam a sua alegria de animais jovens sobre a relva, na orla do lago, na sombra dos arbustos, e então soube que o cão de bela pelagem fulva se chamava Jim tónico, e a descoberta desse facto levantou súbita turbação sobre as águas, como se trouxesse desrespeito a um morto. Porque lembra Ventríloquo a fechadura que inutilizara, da porta de Residência, nela tendo introduzido um fragmento de metal em vez de chave, no momento em que Desconhecido Adverso o olhou com a demasiada atenção?

13/11/2011

(tartaramudo) 38







No que se designa exterior, Ventríloquo sente simultânea atração e repulsa pela cruel pugna de infante com a víbora cornuda, da qual extrai com perícia a escamosa pele antiga. Os olhos de Ventríloquo em Convés mal vêm depois o surpreendente jogo amigável com Galvânico e réptil.

13/11/2011

(tartaramudo) 37








Pouco tempo depois de entrar no salão, após ter ultrapassado uma das portas laterais, Ventríloquo soube que a cadeira que transportava não servia para nada. Procurou um espaço morto na parede contígua à porta e aí a abandonou. Depois atravessou a coxia, em leve declive na direção do grande palco, ao fundo da plateia, e sentou-se num dos lugares vazios na zona oposta à porta por onde entrara. O momento em que ganhou consciência de que os discursos dos oradores se dirigiam a outros ouvidos, que não aos seus, não o pode precisar com exactidão. Tinha-se levantado e caminhou longamente pelo átrio, sem objetivo algum, por vezes ao lado das raparigas em flor, sentindo a leve pressão dos cotovelos delas, antes de se afastarem sem surpresa. Hoje restam as cinzas de uma convicção equívoca, que confunde a memória delas com a dúvida do propósito dos seus corpos no salão de espetáculo sob a luz polvorenta. Uns instantes antes de sair para o exterior (para aquilo que se designa por exterior), Ventríloquo observou um desconhecido dando uso à cadeira que trouxera, depois de a examinar com atenção.

13/11/2011

Avenida Sá da Bandeira







Musgo fino, de tons esverdeados, alastrando sobre as superfícies. Quatro figuras de soldados, atarracadas, assentes em pequenas plataformas frontais das quatro faces do obelisco, exibem, em posição vertical, à frente do ventre e do peito, toscas reproduções de armas, presas às imitações de mãos e braços, igualmente toscas. A duas ou três das estátuas o tempo acrescentou injúria, pois mostram sinais de fratura. O cume do monumento é a esquemática construção em pedra de um projétil de obus. Uma pequena placa na base, no flanco virado a ocidente, lembra homens que caíram em combate.

O céu abrira-se como um manto tecido por velhas Donas. E luz e o reino vão a cântaros, como Eco de Ambrósia.

Na manhã tinha havido imprecação e cólera, e Névoa.

Um frio novo murmura na copa dos plátanos, enquanto automóveis prosseguem o atavismo de automóveis com pressa, e um sono faz perdurar Entusiasmo da cidade por coisas úteis.

No jardim central da Avenida Sá da Bandeira, em Coimbra, nas geometrias com canteiros dentro e as flores, relembra o pensamento de um metafísico agarrado à cabeleira dos nexos causais de Mundo, tropeçando a atenção dele em Plano Falsário, que buscando opor-se ao desmoronamento em curso, como Único efeito apenas o acelera.

E amor em sua cama de espírito, e Ginástica.

E investimentos imobiliários dos com jeito para Negócio.


8/11/2011 





A ufana







Vi a ufana no amanhecer, vi Caravela
Quinhentista sobre mares e pélago, atravessando ouro, riso
Derrubando baluartes vi
Com as asas de três cisnes que são suas velas
Correndo para o voo no campo luminosos do jardim dos 
Jardins.

1/11/2011



Sem máscara








Vento e tempestade
O com furor comboio na planície e forte ruído, ásperos montes
Enquanto arquitectos com horóscopos e cimitarras pensam a torre
Torre abolida, mas a após Vitoriosa Torre 
Dominando campos de pinhais até mar
Em mortíferos atos para depois e Aguarela.

Barbárie de doentes dirigentes, a sem já máscara,
Dos Títeres a putrefacta.

Que Civilização?

27/10/2011

(bestiário paradoxal) 41


















Mas Pomba Oceânica?

26/10/2011

Casal no Afélio






Por que razão vieste a tão alta janela, sobre o abismo vieste na luz doente de uma tarde, na luz amarela a medir projetado exercício na estreita plataforma sobre abismo, e entanto observavas descrente o casal no Afélio, tomando depois a decisão de afastar-te?

26/10/2011